Fobia: Capitulo VII

A A estava sentada no sofá da sala a comer pipocas e a ver um documentário sobre animais.
A campainha tocou. Pousou a tigela das pipocas, enfiou os chinelos cor-de-rosa nos pés e foi abrir a porta.
Costumava ser muito descuidada e então abriu a porta sem espreitar pelo óculo.
-Olá querida, o teu amiguinho P está por aí?
-Não, saiu.
-Oh pá, se o nosso bichinha preferido não está cá temos de nos divertir contigo, então. Aproveitamos e esperamos por ele.
-Deixa-te de cenas! Ou se metem a andar daqui para fora ou eu chamo a…

A A nem teve tempo de acabar a frase, o cabecilha do grupo que tantas vezes espancava o P empurrou a porta de rompante e tapou-lhe a boca. Entrou pela casa a dentro, seguido dos três rapazes, enquanto a arrastava.

-Já que o bichinha não te quer para foder, aproveitamos-te nós.

A A lutava em vão para se soltar, acabaram por a arrastar para o quarto e trancar a porta.

O P continuava sentado no café, a pensar na conversa que tinha tido com o N.
“Mas que raio queria ele dizer com aquela coisa de saber como é fingirmos ser quem não somos?”
Levantou-se, saiu do café e dirigiu-se para casa.
Quando se aproximava do prédio viu que á porta estava parado um carro da policia.
“Que raio, mas o que é que se passa ali?”
Entrou no prédio e subiu as escadas, a porta da casa que partilhava com a A estava aberta ouvia vozes ao fundo, vindas do quarto da A, continuou a andar em direcção ao mesmo.
Quando estava em frente à porta viu a A sentada em cima da cama, embrulhada num cobertor e com a cara ensopada de tanto chorar.

-Então e quantos eram? Perguntava um dos policias para a A.
-Eram quatro…
-Muito bem, vamos precisar que os descreva.
-Sim…

Nisto o P entrou pelo quarto.
-A, o que se passa?
-Quem é você? Perguntou um dos agentes.
-É o meu colega, mora aqui comigo.
-O que se passou!? Perguntava o P, começando já a desesperar.
-Os… Ah… Aqueles rapazes que te andam constantemente a bater… Respondeu a A, enquanto soluçava com o choro
-O quê!?
-Estiveram aqui… Vinham à tua procura…
-Mas… Não, isto não pode estar a acontecer… Soltou o P com ar de desespero.
-Bem, vamos chamar a ambulância para a sua colega. No entanto você também vai ter de nos acompanhar à esquadra.
-Eu, mas porquê?
-Uma vez que também os conhece pode ajudar-nos a identifica-los.
-Ah… Está bem…

O outro agente chamava a central pelo rádio, para lhes pedir que enviassem a ambulância.

-Desculpa, A… É tudo culpa minha…

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Fobia: Capitulo VI

-Então vamos precisar de meter mais compressas e temos de trocar estas garrafas de oxigénio.
-OK, N.

Os dois técnicos encontravam-se na célula sanitária da ambulância a reabastecer os equipamentos. O P aproximou-se pela porta lateral.

-Boa tarde…
-Ah… Olá… Respondeu o N, enquanto lutava para encaixar o monitor de sinais vitais no suporte.
-Então já tiveste alta? Perguntou o J.
-Já, o médico deu-me alta com a condição de não negligenciar a medicação.
-Ah, ainda bem. Quer dizer que não tiveste nada de mais.
-Não.
-Então e o que te traz por cá?
-Ah… Bem… Gostava de falar com o seu colega.

O N virou-se, com ar de surpreendido.

-Comigo?
-Sim.
-Então e o que é que queres falar comigo?
-Hum… Não dá para falarmos noutro sítio?
-Se eu estiver aqui a mais digam. Resmungou o J, enquanto arrumava mais umas coisas.
-Não é a questão de estar a mais ou não… Mas… A que horas sais? Podíamos ir beber um café.
-Bem, saio daqui a meia hora.
-Então posso esperar por ti ali à porta da base e depois vamos a qualquer lado, ok?
-Por mim tudo bem…
-Ok. Então até já.

O P afastou-se da ambulância e foi para a porta de saída da base.
O N sentou-se na maca da ambulância.

-Porra, odeio estas cenas.
-Porquê, N?
-Porque sim, sei lá. Não achas estranho?
-Estranho? Quantas vezes já houve gente a vir aqui agradecer-nos por lhes termos salvo a vida?
-Sim, mas isto é diferente.
-Porquê?
-Não sei, é um feeling que eu tenho.
-Deixa-te de cenas, vai tomar café com o miúdo. Ele não te há-de fazer mal.
-Pois…

O N e o J apressaram-se a arrumar o restante material dentro da ambulância e a preencher os relatórios. O N foi-se agarrou no seu saco, e saiu da base. O P estava à porta à sua espera.

-Então, vamos? Perguntou o N
-Sim, vamos lá.
-Então e queres ir onde?
-Há um café um bocado mais à frente, dá para irmos a pé.
-Siga.

Acabaram por caminhar rua abaixo, lado a lado. Para quebrar um bocado o gelo foram falando de coisas banais como o tempo. Já no café, sentados na esplanada o P resolveu ir directo ao assunto.

-Sabes… O que eu queria falar contigo era…
-Sim, diz lá. Fiquei intrigado.
-É que… Durante quase a minha vida toda andei a fingir ser uma pessoa que não sou, só para agradar à minha família e aos meus amigos, só para agradar a pessoas que nem sequer conheço. Vivi muito tempo com medo de perder tudo se chegasse a ser quem sou.
-Sim… Conheço o sentimento… Respondeu o N enquanto fixava os olhos na chávena de café.
-Conheces? Perguntou o P, com ar de surpresa
-Esquece… Continua.
-Bem. Há uns tempos numa aula, um professor meu estava a fazer uns comentários em relação à orientação sexual das pessoas, falava da homossexualidade como se fosse uma doença. Eu fiquei extremamente revoltado e acabei por não me conter, acabei por rebentar e dizer que não era doente.
-Hum… muito subtil…
-Sim, de facto. Mas curiosamente depois de o dizer em frente a cinquenta pessoas senti-me aliviado, pensava que iria poder começar a ser eu. Sem ter de me esconder e que isso iria tornar mais fácil encontrar alguém, alguém que não me fizesse sentir sempre tão sozinho.
-Mas…
-Mas na turma há um grupo de alunos que não gosta nem tolera muito bem os homossexuais, começaram por me gozar a torto e a direito por toda a escola, depois as agressões, enfim até ao dia em que me foste buscar lá no beco.
-Mas participaste deles à polícia não participaste?
-Sim, mas quando disse ao polícia que estava a preencher os relatórios que sou homossexual ele simplesmente deixou de dar importância ao caso.
-Então, podes participar do polícia também.
-Isso não resolve nada, se a polícia os prender ou fizer alguma coisa, existem outros grupos como eles que acabariam por se vingar em mim.
-Não gostava de estar na tua pele. Já consideraste mudar de cidade, ou de escola?
-Não quero fugir aos problemas… E muito menos…
-Muito menos…?
-Aos meus sentimentos.
-Sentimentos?
-Sim… Tu… Foste a única pessoa, para além da rapariga com quem vivo, que não me olhou de lado quando soube que eu era gay.
-Não tinha porque o fazer.
-Sim. Trataste-me com respeito, e eu gostei muito disso. E não sei porquê, senti-me muito bem ao pé de ti naquele dia, assim como me sinto muito bem agora.
-Mas… P…
-Espera, eu só gostava de te conhecer melhor, gostava que nos tornássemos amigos.
-Mas…

Nesse preciso momento o telemóvel do N tocou.

-Estou? Ok, vou já.
-Que se passa? Perguntou o P.
-O colega que entrou ao serviço depois de mim não está muito bem, tenho de o ir substituir porque não há mais ninguém disponível. Desculpa… Acabamos a conversa noutro dia.
-Ok… Posso ficar com o teu número?
-Desculpa… Mas sempre que quiseres falar sabes onde me encontrar.
-Ok…

O N saiu do café com passo acelerado em direcção à base.
“Salvo pelo telefone… Não me posso envolver nisto, simplesmente não posso.”
O P ficou sentado no café a rever vezes sem conta a conversa que tinham tido.

Fobia: Capitulo V

-Bichinha! Anda cá ao papá! Eu e os meus amigos ainda não nos divertimos o suficiente contigo…
-P, acorda!
-Hum… Merda outro pesadelo…
-Sim, dava para te ouvir gemer na outra ponta da casa.
-Nem agora este inferno acaba.
-Vá tens de tomar os comprimidos. O médico deu-te alta com a condição de fazeres a medicação toda.
-Sim, mamã.
-Vê lá se a mamã não te dá um puxão de orelhas.
-Sabes A, tenho pensado muito naquele rapaz da ambulância.
-Mau… temos paixoneta ou quê?
-Não é isso… É que…
-O quê?
-Ele lidou com o facto de eu ser gay de uma maneira tão normal, e aconselhou-me a falar com a policia.
-Sim, nada que eu não te tivesse dito já.
-É verdade…
-E então?
-Não sei, gostava de falar com ele outra vez…
-Então, passa lá pela base das ambulâncias um destes dias.
-Acho que vou fazer isso, sim.
-Podias ir hoje, há três dias que não sais casa… Se quiseres eu vou contigo.
-Não, eu gostava de ir sozinho.
-Claro, por mim tudo bem.

A A deixou o quarto e foi para a sala estudar. O P levantou-se da cama, ainda com algumas dores, vestiu-se, passou as mãos pela cabeça para ajeitar o cabelo, agarrou nas chaves, na carteira e saiu de casa em direcção à base das ambulâncias.

Somos

Acima de tudo somos pessoas, como tal temos personalidades.
Umas mais fortes e distintas do que outras. E afinal, o que define essas personalidades?

Eu era capaz de arriscar e dizer que são definidas por outras personalidades. Sim são definidas pelas personalidades das pessoas que durante toda a nossa vida nos rodeiam.

A nossa capacidade de distinguir o bem do mal, do que é importante e do que não é, a capacidade de relativizar sentimentos e situações, tudo isso advém das personalidades das pessoas que nos acompanham nos estágios da nossa vida.
O mais interessante é que não existe limite, ou seja, estaremos em constante mutação até ao nosso último dia, desde que nos continuemos a relacionar com pessoas novas e diferentes.

Verdade é que algumas caracteristicas da nossa personalidade nascem connosco e não têm propriamente de vir dos nossos progenitores, mas até essas podem ser manipuladas pela sociedade, pelas diferentes realidades sócio-culturais com que nos deparamos.

Haverá maneira de lutarmos contra isso? Gosto de acreditar que sim, mas cada vez tenho mais provas de que não.

Eu gosto da diversidade, acho que o mundo é um lugar bem melhor se todas as pessoas forem diferentes com apenas um ponto em comum nas suas personalidades, a capacidade de entender e aceitar pontos de vista e personalidades diferentes. No entanto se calhar a incapacidade que algumas pessoas têm de aceitar que exista gente diferente foi cauada por interferência das tais realidades sócio culturais que enfrentaram.

Portanto da próxima vez que virem alguem com falta de carácter e  com pouca personalidade, em vez de lhe oferecerem um hematoma na face perguntem-lhe antes “O que é que te aconteceu na vida que te tornou na pessoa que és?”  e depois em vez de darem a outra face, virem as costas. 😉

Abraços

Desassossego

Na vida de algumas pessoas existem momentos de ruptura, momentos em que coisas mudam drásticamente.
Ha pessoas a quem a oportunidade de começar de novo é dada. A quem é dada a hipotese de mudar de direcção na próxima bifurcação.

Isto certamente não passará de um desabafo, e nem sei porque o estou a escrever aqui uma vez que não muda nada.

Mas eu também tive a oportunidade de mudar de direcção, e agarrei-a com unhas e dentes, continuei pelo novo caminho lutando contra tudo e contra todos, tinha a certeza de que era o caminho que me faria feliz, alías eu sei que é esse caminho que me vai fazer feliz.
No entano avista-se outra bifurcação, se for para um lado continuo neste novo caminho que mudará a minha vida e fará de mim a pessoa que quero ser, se for por outro ajudo alguém que também sempre me ajudou mas arrisco-me a não conseguir voltar e a acabar por seguir numa estrada que terá eventualmente um fim, que eu não sei qual é.

No final das contas feitas eu sei qual das duas opções devo escolher mas a ansiedade de saber se vai resultar, se vai dar certo, ou se terei simplesmente desperdiçado a minha vida provoca-me panico. Deixa-me ansioso, causa-me dores de estomago, seca-me a garganta e acima de tudo estrangula-me o coração e causa-me dúvida.
Certamente que é preciso cometer erros para poder aprender com eles e prosseguir na vida, mas e se o erro que cometemos é falhar à própria vida? Se o erro que cometemos acaba por tirar todo o sentido à mesma? Será que continua a haver um lado positivo?

Pronto, era isto. Só o tempo acabará por revelar as repostas a certas perguntas, mas o tempo que tantas vezes me falta parece ser em demasia agora.

Fobia: Capitulo IV

-Então J, o que temos?
-Masculino, vinte anos, vítima de agressão.
-Bolas, anda tudo à porrada.
-Se calhar lutaram por causa de alguma declaração sobre o Papa.

Os dois técnicos riam-se na ambulância enquanto o J conduzia pela cidade.

-Está ali o carro da PSP. Deve ser ali.
-Ok.

O J estacionou a ambulância antes do carro da policia. O N foi o primeiro a sair e a tirar os sacos, dirigiu-se ao agente mais graduado.

-Boas, quem o encontrou?
-Um homem que já interrogamos, identificamos e deixámos ir. Diz que o encontrou na posição em que está e que viu um grupo de rapazes a afastar-se.
-Ok.

O J já estava junto do corpo do rapaz, encontrava-se de barriga para baixo, sujo de lama, de cuspo, e viam-se pequenas hemorragias.

-Oi, estás-me a ouvir?
Não obteve resposta.
-Tem perda de consciência, N.
-Ok, vamos rolá-lo em bloco.

Os dois técnicos colocaram o rapaz de barriga para cima, garantindo a estabilidade da coluna cervical.
-Ok pupilas normais.
Continuaram a avaliação do rapaz e colocaram-no na ambulância, o carro da PSP seguiu-os para que depois pudesse interrogar o rapaz.
-J, vai devagarinho e evita os buracos, não sabemos se existe algum traumatismo da coluna portanto vamos tentar mantê-lo o mais estável possível.
-Ok, N.
O rapaz que estava deitado na maca começou a reagir, e acabou por abrir os olhos.
-Bom dia, como te chamas? Perguntou o N que estava de pé ao lado dele.
-P… O que se passa?
-Bem, chamaram-nos porque te tinham encontrado inconsciente na rua.
-O que … o que aconteceu?
-Parece que foste agredido. Lembras-te de alguma coisa?
-Ah… sim. São uns colegas meus…
-Colegas?
-Sim, estudam na mesma faculdade que eu.
-Então e bateram-te porquê?
-Porque eu tenho a mania que posso ser como sou.
-Desculpa, não estou a perceber.
-É que eu sou gay, e eles pelos vistos não gostam muito disso.

O N fechou os olhos por um minuto, respirou fundo. Como se o tivessem acabado de o levar para um pesadelo, suspirou e perguntou.

-E então, vais continuar nisto? Não achas que tens de tomar uma atitude?
-Não posso mudar a cabeça das pessoas…
-Não, mas podes apresentar queixa deles.
O P suspirou, sabendo que era o que tinha de fazer mas com consciência de que as consequências de o fazer poderiam ser ainda mais graves.

-N, estamos a chegar. Gritou o J do outro lado da ambulância.
-Ouviste, P? Já estamos a chegar ao hospital, a polícia depois vai-te fazer umas perguntas, vê lá o que dizes.
-Ok… Obrigado por tudo.
-Não, é o nosso trabalho.

A ambulância entrou nas urgências do hospital seguida do carro da polícia, os dois técnicos apressaram-se a tirar o rapaz de dentro da ambulância e a levá-lo à triagem.

Fobia: Capitulo III

-Pronto P. Melhor?
-Sim, obrigado A.
-Olha P vou sair, preciso de ir comprar umas coisas para a escola.
-Ok, eu também vou dar uma volta daqui a mais uns minutos.
-Está bem, vê lá se te animas.

A A agarrou no MP3 e bateu com a porta. Saiu, como sempre, a cantar as músicas que ia ouvindo ao mesmo tempo no reprodutor.
O P levantou-se da cadeira da cozinha, arrumou as chávenas do chá e limpou os pratos das torradas. Calçou as sapatilhas, agarrou nas chaves e saiu.
“Boa, não tenho grandes sítios onde ir. Vou só andar um bocado e depois volto para casa.”

O P tinha o hábito de passear pela rua, sem rumo, quando precisava de esvaziar a cabeça ou esquecer alguma coisa. Passeava-se pela cidade, observando as pessoas, imaginando as vidas que tinham. No entanto o seu passeio foi interrompido.
– P!

O P voltou-se para ver quem era, mas desejou de imediato não o ter feito.
“Merda, só me faltavam estes.”

-Onde vai a nossa bichinha preferida?
-Porra, deixem-me em paz. O que é que vocês querem afinal?
-Nada Pêzinho, só nos queríamos divertir contigo um bocadinho mais.

Os quatro rapazes que o tinham espancado há umas horas atrás na faculdade, estavam agora com ele numa rua praticamente deserta por onde só passava um carro ou outro. Um deles meteu-lhe o braço por cima dos ombros.

-P, porque não vens connosco ali à frente para falarmos melhor.
-Não, deixem-me em paz.

Sem que tivesse tempo para reagir já outros dois o puxavam pelos braços. Levaram-no para uma zona ainda mais recatada da rua e atiraram-no contra o chão.

-Então P. É agora que as coisas se resolvem.
-Porra pá! Deixa-me em paz, o que é que queres afinal?
-Quero que a escumalha como tu, as aberrações como tu desapareçam da terra de uma vez por todas, não basta os emigrantes, os judeus, os pretos e ainda temos de gramar também com paneleiros na faculdade? O mundo está podre por causa de merda como vocês.
-E então que queres fazer? Estamos aqui também temos de viver como vocês.
-Não P, não têm. Porque nós estamos cá para garantir que isso não acontece.

E então, sem que o P tivesse tempo de dizer fosse o que fosse em resposta, um dos rapazes deu-lhe um pontapé na nuca deixando-o imediatamente inconsciente no chão. Depois os quatro divertiram-se a pontapeá-lo e a cuspi-lo.

Fobia: Capitulo II

-N! Vamos!
-Então o que temos?
-Mulher 62 anos com dor pré-cordial com irradiação, dispneia e vómitos.
-Guias tu ou guio eu?
-Eu.
A ambulância saiu da base a toda a velocidade de sirenes e rotativos ligados, o N no lugar do pendura e o J no lugar do motorista. Serpentearam por entre o trânsito da cidade, a chuva não permitia grandes velocidades mas também não podiam estar parados nas filas de trânsitos habituais das metrópoles durante a hora de ponta.
O N apontou para um prédio velho, com seis andares e uma fachada em péssimo estado.
-É este?
-Não, número 16 é no outro ao lado.

O número 16 era um prédio também antigo, de cinco andares, a fachada parecia ter sido recuperada há pouco tempo a porta de baixo já estava aberta à espera dos Técnicos da Ambulância.

-Leva as duas malas, eu levo a garrafa de oxigénio e a cadeira de transferência.
-Ok, N. Como queiras. Já vi que as férias não te tiraram o espírito de liderança.
-Desculpa é algo natural.
-Na boa…
-Que andar?
-Quarto esquerdo.
-Óptimo.
Quando chegaram ao quarto piso a porta do apartamento já estava aberta e uma senhora de bata já os aguardava.
-A senhora está no quarto deitada na cama, terceira porta à esquerda no corredor.
-Ok, obrigado.

O quarto estava escuro, as cortinas vermelhas impediam que o sol entrasse, e as cores pesadas dos móveis antigos pareciam absorver a pouca claridade que se atrevia a entrar no quarto.

-Como se chama a senhora? Perguntou o J à senhora que os tinha recebido à entrada enquanto o N abria os cortinados para trás.
-Quem, eu ou a minha patroa?
-Ah, você é empregada? Não, querida. Eu quero saber o nome da sua patroa.
-Chama-se Maria de Lurdes.

O N debruçou-se sobre a cama.
-Dona Maria, está-me a ouvir?
A senhora abriu os olhos.
-Dona Maria, o que sente?
-Ai menino, uma dor aqui no peito que está a apanhar o braço. É tão forte que me deu vómitos e mal consigo respirar. Disse a senhora com dificuldade e com uma fala um pouco arrastada.
-Ok, então vamos por esta máscara e recostar na cama para ajudar a respiração, está?
-O que vocês quiserem, vocês é que sabem.
O N e o J trabalharam juntos no posicionamento da senhora e na colocação da máscara.
-Pronto J, tira-lhe a tensão.
-Hum… N, tenho uma sistólica de 190 e uma diastólica de 102.
-Ok. Dona Maria, olhe vamos por este comprimidinho debaixo da língua para ajudar a baixar um bocadinho a tensão. Agora com a máscara já respira mais facilmente?
-Já está um bocadinho melhor. Respondeu a idosa.
-N, as saturações estão a 93%.
-Ok, pelo menos já subiram um bocado, e a tensão?
-Agora tenho 150 por 94.
-Melhor.
-Dona Maria fez algum esforço quando começou a dor ou enervou-se?
-Ai menino enervei-me sim!
-Então?
-Então estava um homem na televisão a dizer mal do senhor Papa, a dizer que o Papa só queria era dinheiro. Eu fiquei que não podia, ai se aquele gandulo daquele homem estivesse à minha frente eu dava cabo dele.

O N e o J olharam um para outro, estava difícil conter o riso.

-Olhe dona Maria, vamos mete-la nesta cadeirinha e leva-la para ambulância Ok? Pelo caminho preciso que me diga quais as doenças que tem. Disse o N, tentado esquecer-se do motivo que tinha despoletado toda aquela situação.
-Sim menino.
O J pediu à empregada que fosse buscar os medicamentos que a senhora tomava e os metesse todos num saco enquanto ele e o N metiam a senhora na cadeira.
Levaram a senhora para baixo e sentaram-na na maca, arrumaram o resto do material e arrancaram para o hospital.

Fobia: Capitulo I

-Parem caramba! Deixem-me em paz!
-Oh coitadinha da bicha, tem dói-dói?
-Vá já chega, vamos embora.
-Para que é que é isto? Não me podem deixar viver a minha vida em paz?
-Adeus P, até amanhã.
-Porra, porque é que não me dizes?

“Merda, estou farto de levar porrada todos os dias, quando é que isto acaba?”

Chovia a potes, o frio era imenso também. O P agarrava-se às paredes para se levantar, era raro o dia que não era agredido na faculdade por ter assumido a sua orientação sexual numa aula de Direito. As calças de ganga já não eram azuis, eram castanhas devido à lama, o casaco de cabedal que lhe tinha custado uma fortuna já tinha mais um rasgo, provavelmente era desta que o punha de parte. Às nódoas negras das tareias anteriores junta-se agora um hematoma no lado direito da face, uns quantos golpes nas mãos e o sangue que lhe corria do nariz. Os olhos verdes que há poucos anos tinham sempre uma expressão alegre estão agora vermelhos de tanto chorar. A coxear da perna direita devido às caneladas mais recentes lá entrou no carro, e voltou para o quarto que tinha alugado numa casa que partilhava com uma rapariga.

Abriu a porta devagar, conseguia ouvir risos que vinham do fundo do corredor, era a A, devia estar entretida a ver vídeos no YouTube. O P seguiu directo para o quarto sem passar pelo quarto dela para a cumprimentar como era habitual, despiu as roupas molhadas e enlameadas, atirou-as para o chão e deitou-se de barriga para cima na cama a pensar mais uma vez de como se arrependia de ter aberto a boca em relação à sua orientação que tantos apelidavam de escolha.

Os risos calaram-se e pela porta do quarto entrou uma figura magra, de cabelo castanho e curto, com um aparelho que lhe dava um sorriso brilhante.

-Uau, P! Se não fosses gay atirava-me já a ti.
-Porquê? Perguntou o P enquanto limpava as lágrimas.
-Gosto dos boxers com o Bart. Que se passa, bateram-te outra vez?
-Ya. Estou tão farto disto, A. Pensava que a minha vida ia mudar, que ia poder ser simplesmente eu, sem ter de mentir constantemente. Mas… Tem um preço muito alto.
-Porque é que não participas deles? Ou fazes queixa à Policia?
-Não, as coisas hão-de se resolver.
-Tu lá sabes, olha vou-te fazer um chá quente e meter-te estas roupas para lavar, vê lá se vestes qualquer coisa seca ou ainda te mordo. E devias meter gelo na cara e uns pensos nos arranhões.
-Vou fazer isso.
-Se precisares de alguma coisa grita, estou na cozinha.
-A…
-Sim?
-Obrigado por seres tão boa amiga.
-Ora! Pagar-me-ás cada minuto da minha amizade com ouro. Disse a A enquanto saía do quarto e se ria.

Conhecimento

Diz-se, “Conhecimento é poder”. Será? A sério, ando um bocado cansado de ter de provar a ferro e fogo o que valho e o que sei e mesmo assim nunca ser reconhecido por isso. Diz-se também que vivemos numa sociedade cada vez mais exigente devido ao desenvolvimento da mesma, eu acho que vivemos numa sociedade cada vez mais acomodada. Onde o conhecimento já não é poder, uma vez que toda a informação está a distância de meia dúzia de clicks. Logo tudo o que possa ser considerado conhecimento, é relativo. O que nos leva também a pensar sobre a qualidade desse conhecimento armazenado por servidores, não podemos esquecer que o que lá está é apenas aquilo que alguém lá colocou para que o acessássemos. E então continua a ser de qualidade e viável?

Este tema tem despertado a imaginação de imensos autores, guionistas e romancistas, mas e se tudo aquilo que achamos que não passa de ficção fosse realmente real?

Está mais que provado que os filmes de ficção cientifica acabam por conduzir o desenvolvimento da tecnologia, porque os investigadores e os cientistas acabam por se basear no que é apresentado nos mesmos para prosseguirem as suas investigações.

E então se as teorias da conspiração tão bem desenhadas por entre linhas de texto por Dan Brawn ou representadas nos filmes dos irmãos Wachowski fossem na verdade a realidade e nós estivéssemos apenas demasiado cegos e ocupados com as nossas vidas para nos apercebermos disso?

Seria assim tão importante sabê-lo?