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Manhã

Caramba, estas noites de farra em bares andam a dar cabo de mim. Dizem que o álcool mata neurónios, mas eu acho que já não são só os neurónios a morrer, acho que todo eu estou a morrer um bocadinho por dentro. Só tenho três horas de sono dormido mas tenho de ir trabalhar, as contas não se pagam sozinhas e as dívidas fazem-se cobrar.
O meu patrão bem me diz que eu preciso de descansar, que já não dou o rendimento que dava e mais uma data de tretas, que sabe ele? Ele não tem problemas…
Chega de lamurias, tenho de sair da cama, por mais que me custe. Para não fazer uma saída tão brusca vou-me sentar primeiro um bocado, espreguiçar-me bem, inspirar fundo.
Saio da cama meio encolhido por causa do frio, estes verões de Março têm sempre manhãs geladas.
Vou lavar a cara com água fria para ver se acordo deste estado de dormência. O café que eu faço de manhã não é tão bom como o que a minha mãe fazia, e o pão parece que também não sabe ao mesmo, mas têm de servir. Visto as calças pretas, a camisa branca, a gravata vermelha e as minhas all-stars de ganga.
O meu patrão diz que não me gosta de ver assim vestido, mas eu também não o gosto de ver de maneira nenhuma e não me queixo.
Agarro nas chaves, na carteira e no telemóvel, saio de casa e entro no carro. Está a precisar de uma limpeza, tem demasiados pacotes vazios de batatas fritas e de pipocas espalhados pelo chão, e as caixas vazias de preservativos também não lhe dão muito melhor aspecto.
Esta é sem dúvida a melhor hora para conduzir pela cidade, é o pára-arranca perfeito. Adoro, juro que adoro andar pelo meio do trânsito, ouvir businadelas, insultos e berros parvos de pessoas que não sabem esperar não sabem ter calma. “FODA-SE SAI DA FRENTE CARALHO! JÁ ESTOU ATRASADO PARA O TRABALHO E AINDA TENHO DE GRAMAR COM ABÉCULAS COMO TU!” Acho que ele não me ouviu, vou mas é apertar a busina. Vá lá! Mexeu-se. Adoro isto… Ou então não.
Oh, excelente! Uma operação stop. Um dos polícias mandou-me encostar, veio ter comigo á janela. “Bom dia!” Olha… Eu conheço este gajo! “Bom dia Ricardo!” “João!?” “Sim.” “Já não te via há tanto tempo, olha caga nisto, eu sei que tens tudo em ordem. Podes seguir” “Obrigado, até qualquer dia.” Afinal isto de sair a noite tem as suas vantagens, ficam-se a conhecer pessoas de todo o lado e com as mais variadas profissões, e afinal ele até me deve um favor. Sim porque ajuda-lo a entrar no primeiro andar sem que a mulher dele desse por isso e tendo em conta que ele não sabia das chaves, devido a quantidade de álcool que tinha no sangue, não foi propriamente fácil. Aliás, gostava de me lembrar como consegui tal proeza…
Bem, não posso estar a pensar nestas cenas, tenho de me despachar que o patrão não perdoa. Ah a fachada do edifício onde eu trabalho, como é bonita, como eu adoro este lado. A sério, nem estou a ser irónico nem nada… Ok, talvez esteja.
Caramba é melhor mas é correr pelas escadas, já cá devia estar há meia hora…
“Bom dia Sr. João, já nem se cumprimenta as pessoas?”
“Desculpa Carlos, se quero manter o escroto agarrado ao corpo tenho de despachar, que o chefe já não me pode nem ver a frente.”
Boa, ali está a minha secretária. Ando calmamente em direcção á mesma na esperança que ninguém dê por nada, sento-me em frente ao computador. Gosto de perder um minuto ou dois a observar os meus colegas que se sentam em secretarias em redor da minha. A Rita está só a olhar para o Miguel e a morder o lábio, esta gaja é incrível já dormiu com toda a gente desta empresa excepto eu, claro, e mesmo assim parece que não chega. O Pedro está a tentar esconder a garrafa de whisky, as reuniões nos alcoólicos anónimos não o têm ajudado em nada e quem sofre é a mulher, que leva tareia todos os dias á custa das bebedeiras dele. Lá está a Maria, isto sim é uma mulher, consegue enganar o marido e dois amantes e ainda tem tempo para levar os filhos á catequese e educa-los sobre lealdade e dedicação. A secretaria do Rodrigo está vazia, estranho, terá ficado doente?
Olha, olha. É a mulher do chefe que vem a chegar, vem com ar de poucos amigos, vai direita á porta do gabinete dele. Sim, senhor. Nem bateu nem nada, entrou por ali como se fosse tudo dela.
“Aaaaaah!”
Que raio!? Já ouvi de tudo um pouco vindo daquele gabinete, mas gritos histéricos de mulher é uma estreia! Olha já vem a sair… “Eu não acredito nisto! Como é que me pudeste enganar durante tanto tempo? Nós temos três filhos por amor de deus!” O patrão vem a sair meio atrapalhado a puxar as calças para cima “Desculpa querida… Não sei como explicar…”, “Esquece, não é preciso!” Lá vai ela, toda danada, a toda a velocidade em direcção as escadas.
Espera vem mais alguém a sair do gabinete… Mas que!? É o Rodrigo e vem a fechar a braguilha…