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Fobia: Capitulo XII

– Porra, não o podiam deixar fora disto!?
– Cala-te! Ele é que veio atrás de ti? Agora não tentes proteger o teu namoradinho, se ele é como tu também está a mais!
O N, conseguia ouvir a discussão entre o P e o líder do grupo, ainda meio zonzo da pancada sentiu o corpo pesado e preso. Abriu os olhos e sacudiu a cabeça, estava amarrado a uma cadeira, ao seu lado, também amarrado, estava o P. Á frente de ambos estava a o líder do grupo, olhava agora para o N, com um sorriso cínico.
– Então, vinhas salvar o namoradinho mas acabaste por te lixar também não é?
– Ele não é meu namorado! – Gritou o N.
– Oh a sério? Então porque é que te deste ao trabalho de arriscar a vida por ele?
– Porque… Porque sim! Eu não tenho de te dar justificações nenhumas, acho bem que nos deixes ir embora ou vais-te arrepender desta merda!
-Não, não. Só há duas pessoas que se vão arrepender, tu e o teu namorado.
– Ai sim? E vais fazer o quê?
– Por um fim á vossa miséria…
– É mesmo coisa de cobarde…
-Chama-me o que quiseres, eu vou lá fora fumar um cigarro, os meus rapazes ficam aqui para ter a certeza de que vocês recebem o melhor tratamento possível.
O líder do grupo saiu do barracão e foi para a porta fumar. No interior os outros três elementos do grupo divertiam-se a espancar consecutivamente o P e o N.
Após longos minutos de agressão o líder do grupo voltou a entrar. Pegou numa pá, que estava encostada à parede, do lado de dentro perto da porta, e atirou-a a um dos outros rapazes.
– Vai cavar as covas, não podemos deixar os corpos aqui.
O rapaz saiu do barracão pela porta de trás. O líder então mandou os outros dois irem um bocado para a rua.
Puxou uma cadeira para a frente do P e do N, agarrou na arma e sentou-se, fitando-os nos olhos.
-Preciso que me respondam a uma coisa…. – Disse ele para ambos.
– Fode-te! – Respondeu o P.
– Porque é que escolhem ser assim? Se sabem que Deus vos odeia por isso, porque é que escolhem?
– Quem é que te disse que deus nos odeia? – Respondeu o N, que tinha dificuldade em falar devido à quantidade de sangue que tinha dentro da boca.
-Diz a Bíblia.
-Ai é? Ou será que é a interpretação que a igreja católica faz dela que o diz?
– Talvez, mas de qualquer maneira, nós fomos feitos para procriar, para nos reproduzirmos, e vocês não o podem fazer, logo não servem para nada.
-Ai sim? Então e os heterossexuais que não podem ter filhos, por serem inférteis, também queres acabar com eles?
– É diferente…
-Não, não é.
-É sim, esses são normais. Vocês são aberrações, são pessoas que nasceram com defeitos, que metem em risco a nossa raça. Achas que eu quero viver num mundo onde os meus filhos vêem homens a comer-se na rua?
– É melhor viverem num mundo onde o pai é um assassino?
– É por uma boa causa….
– E se um dos teus filhos for homossexual, vais matá-lo?
– Não, mas dou-lhe uma descomunal tareia e corro com ele de casa, depois mato-me.
– É esse o valor que dás à tua vida?
O outro sorriu, puxou a culatra da arma atrás e encostou a ponta à testa do P.
-Uma vez que este esteve tão calado, deve ser por ter mais pressa que tu. Vou fazer-lhe um favor, ele vai primeiro.
O P não conseguia falar, a sua respiração ficou mais rápida e começou a chorar.
-Não faças isso. – Disse o N – Depois vais preso, passas a vida atrás das grades, de que é que te serve?
-Mas… Nunca ninguém vai saber, porque ninguém se rala com duas bichas como vocês. E agora acabou a conversa.
Com a arma ainda colada à cabeça do P, o rapaz olhou-o nos olhos, encostou o indicador ao gatilho. O N cerrou os olhos e desejava poder tapar os ouvidos, mas não podia.

Acabou por ouvir finalmente o som de um tiro. Sentiu um arrepio por todo o corpo. Abriu os olhos.
Ficou perplexo, quando à sua frente, viu o líder do grupo a sangrar da boca, uma ferimento de bala na zona anterior do tórax, os braços caídos ao longo da cadeira com a arma a apontar para o chão.
Olhou para o lado, para ver se o P estava bem. Este continuava de cabeça baixa, de olhos fechados, a chorar.
-P, abre os olhos. Está tudo bem…
O portão do barracão abriu-se, entraram três agentes da policia judiciaria que de imediato soltaram o P e o N das cordas. Um deles encaminhou o P para fora do barracão, outro puxava o N pelo braço para sair dali, mas o N olhava para o corpo e para a janela de onde tinha espreitado, aparentemente teria sido dali que o tinham abatido.
-Venha vamos sair daqui. – Dizia o agente para o N.
-Não! Ainda há mais três, e este precisa de uma ambulância.
– Os outros três já estão detidos e este…
Ainda o agente não tinha acabado de falar e já o N estava a puxar o corpo para o chão, a tentar controlar a hemorragia e a tentar uma reanimação.
– Deixe-o, ele está mais que morto – Dizia o agente.
-Não, ainda o podemos salvar. Chame uma ambulância, rápido!
– Estão lá fora duas equipas do INEM…
-Mande-os vir!
-Deixe-o!
-NÃO! MANDE-OS VIR JÁ!
O agente pareceu ficar assustado com a reacção do N, pelo que acabou por chamar uma das equipas do INEM. Os técnicos da equipa substituíram o N nas manobras, e só depois é que o agente o conseguiu tirar de dentro do barracão.
-Vamos, agora é você que precisa de ser visto para tratar dessas feridas.
E encaminhou o N à mesma ambulância onde o P estava a ser assistido. Embora estivessem muito próximos não se falaram. O P tinha um olhar vago e distante, o N sentia-se nervoso, alterado.
Ambos foram encaminhados a um hospital, para suturar feridas, nenhum dos ferimentos eram graves, e poucas horas depois foram levados à esquadra para prestarem depoimentos.
Pelo caminho, desde o hospital até à esquadra, o P perguntou ao N.
– Onde te vês daqui a 10 anos?
– Casado e com um filho. – Respondeu o N rapidamente.
O P virou a cara para outro lado, para esconder as lágrimas.
Ambos ficaram retidos na esquadra largas horas, entre depoimentos e confirmação de factos, a relatórios e faxes e telefonemas, acabaram por sair de lá já de noite. O N saiu primeiro e esperou o P à porta, ainda tinha alguma coisa para lhe dizer.
– P, espera!
– Diz…
– Em relação à tua pergunta de há bocado…
– Sim?
– Eu devia ter respondido de uma maneira mais completa…
– Como assim?
– Devia ter dito que, daqui a 10 anos me imagino com um filho adoptado.
– Não estou a perceber…
– E casado, sim. Mas… contigo.

FIM

E pronto acabou,  espero que tenham gostado. E desculpem lá o tempo que demorei a acaba-la.  😛

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Fobia: Capitulo XI

O N ainda não sabia o que se tinha passado dentro do barracão, mas sabia que o som de tiros não podia significar nada de bom.
Aproximou-se mais do barracão, mantendo-se baixo para evitar ser visto. Ao mesmo tempo que se aproximava, procurava eventuais entradas e saídas por onde pudesse espreitar para o interior.
Reparou que o barracão só tinha duas entradas, um portão grande na parte da frente, e uma porta na lateral, reparou ainda que ao lado da porta havia uma pequena janela, alta, que provavelmente servia apenas para fazer ventilação da estrutura. Resolveu que seria o melhor sítio por onde espreitar embora também fosse extremamente arriscado.
Continuava a andar a passos curtos e leves, tentando não fazer barulho.
Quando finalmente chegou à janela percebeu que não a conseguia alcançar, a janela infelizmente estava muito alta. Procurou em redor algo que pudesse usar para ficar mais alto, viu que a poucos metros havia um amontoado de paletes de madeira.
“Oh, que bom… Será que isto pode piorar?”
Dirigiu-se ao monte de paletes, escolheu uma que parecesse mais robusta e que fosse fácil de tirar dali sem fazer barulho, depois arrastou-a, lentamente, até à parede do barracão. Encostou a palete verticalmente à parede, com o máximo cuidado para não fazer barulho, subiu para cima da mesma e finalmente conseguiu olhar para dentro do barracão.
O barracão era amplo, sem divisões. Havia uma mesa encostada à parede oposta à qual se encontrava. No cima da mesa havia uma arma de fogo, e um cinzeiro com beatas de cigarro que ainda fumegavam. Encostado à mesa estava um dos rapazes que vinha no carro, olhava fixamente para frente onde o P estava. Amarrado a uma cadeira o P permanecia de cabeça baixa, olhava fixamente para o chão. O líder do grupo permanecia na sua frente, parecia estar a falar para ele, mas o N não os conseguia ouvir.
Por trás do P estava outro dos rapazes, a fumar, que resolveu apagar o cigarro nas costas do P, este contorceu-se com dores.
“Ufa… Pelo menos está vivo. Mas… Onde está o outro?”
O N olhou para todos os cantos do barracão, na tentativa de encontrar o quarto elemento do grupo, mas não o via.
Resolveu descer da palete para voltar à ambulância, precisava de saber se a policia ainda estava muito longe.
Mal assentou os pés no chão sentiu uma pancada extremamente forte na nuca, a única coisa que lhe ocorreu antes de perder os sentidos foi “Foda-se, estavas aí…”.

Fobia: Capitulo X

O trânsito na auto estrada estava moderado pelo que o Pegeut conseguia progredir a uma boa velocidade dirigindo-se para sul.
O N também estava a conseguir aproximar-se mais do carro, os outros condutores, ao ouvirem as sirenes, desviavam-se para dar prioridade à ambulância.
Ao mesmo tempo que virava o volante freneticamente de um lado para o outro, o N, comunicava com a central pelo rádio, a explicar o que se passava e para onde se dirigiam, na esperança que os colegas do CODU informassem a polícia.
A perseguição continuou ao longo de vários quilómetros, após quase uma hora a conduzir que nem um louco em plena autoestrada o Pegeut dirigiu-se a uma saída, atravessou uma ponte e depois meteu-se por uma estrada de campo. O N actualizou a localização e direcção através do rádio, o colega do outro lado, confirmou que já havia viaturas da polícia a caminho, continuou a perseguir o carro, mas naquela estrada a ambulância ficava mais difícil de conduzir àquela velocidade, no entanto não podia desistir.
A distância entre o Pegeut e a ambulância começou a aumentar, o Pegeut deslocava-se muito melhor, na estrada rural, do que alguma vez a ambulância conseguiria.
O N acabou por começar a perder o Pegeut de vista, mas uma vez que a estrada não tinha quaisquer bifurcações ou desvios sabia que o carro só tinha uma direcção a seguir, manteve a maior velocidade que conseguia e rezava para ainda os apanhar a tempo.
Após aproximadamente meia hora a conduzir pela estrada de campo o N começou a avistar ao longe um barracão velho, bem como uma nuvem de pó na direcção do mesmo, calculou que fosse o Pegeut.
Aproximou-se um bocado mais, ainda com a ambulância e quando o barracão já estava só a cerca de 500 metros, apeou-se e continuou o caminho a pé, escondido por entre a vegetação, que embora não fosse muito alta sempre permitia alguma discrição de movimentos.
Quando já se encontrava perto o suficiente, para ver o Pegeut estacionado à frente da porta, procurou um sítio onde se esconder para ficar a observar enquanto a policia não chegava.
Deixou-se ficar 5 minutos, depois mais 10 até que ouviu dois tiros.
“Merda, merda, merda! Tenho de chegar mais perto para ver o que se passa…”

Fobia: Capitulo IX

Passaram dois dias desde que o N tinha deixado a A na triagem do hospital.
Ainda não eram 6:00 e já se levantava da cama para ir entrar ao serviço, estava curioso em relação ao estado da A e em relação a se o P tinha voltado a ser agredido ou não. Lavou a cara, os dentes, comeu um iogurte à pressa, vestiu a farda e saiu de casa.
No outro lado da cidade o P tinha mais um pesadelo com o grupo que tantas vezes o atormentara. Acordou assustado, sentou-se na cama, abanou a cabeça e foi até à casa de banho passar água fria na cara.
No outro quarto da casa a A dormia sossegada graças aos comprimidos que o Psiquiatra, que a seguia por causa do trauma, lhe tinha receitado.
O dia passou rápido, já o relógio marcava as 16:00 e o N saia porta fora da base de ambulâncias sentiu o telemóvel a vibrar dentro do bolso. Era um número que desconhecia, mas atendeu.
-Estou?
-Olá N, sou eu…
-P…
-Olá, está tudo bem?
-Sim, e contigo?
-Também…
-Então, que se passa?
-Hum… Queria perguntar-te se não queres ir beber um café comigo hoje?
-P…
-Só um café, a sério.
-Ok.
-Então pode ser no mesmo sitio onde fomos no outro dia?
-Claro.
-Óptimo, vou só avisar a A e vou já lá ter.
-Ok, vou a sair do trabalho também vou já para lá.
-Ok, até já então.
O N não se sentia muito à vontade por ir para o café, no entanto lá foi rua fora.
O P saiu porta fora, entusiasmado por ir ver o N outra vez. Ia em passo acelerado de headphones nos ouvidos desceu a rua de sua casa e segui pela avenida, para cortar caminho meteu-se por uma rua perpendicular que lhe ia poupar dois quarteirões de caminho.
Ao entrar nessa mesma rua apercebeu-se que já há um bocado havia um rapaz a segui-lo. Achou estranho mas não ligou. A rua não era muito movimentada, passavam meia dúzia de pessoas em sentido contrário ao seu, de entre os rostos reconheceu um. Era o líder do grupo que constantemente o agredira. Olhou para trás na esperança de poder voltar para casa sem que o outro reparasse nele mas foi nesse momento que se apercebeu que o rapaz que o seguia à distância era um dos agressores. Pegou no telemóvel para tentar ligar para a policia, mas com a atrapalhação acabou por ligar para o N.
-Estou?
-N!? Gaita!
-O que se passa?
-Estou na 25 de Maio, eles estão aqui!
-Eles quem, o que é que se passa?
-Os tipos que me costumam bater.
Do outro lado o N já só ouviu uns pneus a chiar e o telemóvel a bater no chão. Depois disso a chamada caiu.
O grupo de rapazes que tantas vezes agredira o P estava determinado a acabar com ele de uma vez por todas, tinham-no metido à força num carro e arrancavam pela rua a toda a velocidade.
Desesperado à procura de uma maneira de ajudar o P o N correu o que podia e o que não podia para voltar à base, pegou numa das ambulâncias que estavam desocupadas e arrancou base fora. Ligou as sirenes e os rotativos e dirigiu o mais rápido que pode para a 25 de Maio, ainda na rua que a antecedia já via um Pegeut 206 preto a seguir em direcção à entrada para a auto-estrada, esforçou-se por ver para dentro do carro. Conseguiu ver o condutor, um pendura e no banco de trás mais três pessoas. Reconheceu imediatamente a do meio, era o P.
Dentro do Pegeut o P seguia sentado, calado enquanto um dos rapazes lhe apontava uma arma de fogo.
-Deixa-te ir sossegadinho P, olha que ainda sabemos onde moras e a tua amiga soube mesmo bem…, dizia-lhe o rapaz que se sentava à sua esquerda.
O N esforçou-se por seguir o Pegeut, o condutor deste percebeu que estava a ser seguido e então acelerou a marcha em direcção à auto-estrada.

Fobia: Capitulo VIII

[Já tinha saudades de escrever, obrigado pelos comentários. ;)]

-R!
-Diz?
-Temos serviço…
-Então é o quê?
-Feminino, 19 anos, vítima de agressão e violação.
-Estás a gozar…
-Não, agarra-te ao volante.
A ambulância fez a curva á saída da base com apenas duas rodas a tocar o chão, sirenes e rotativos e todo o barulho habitual de uma ambulância. Deslizou por entre o trânsito, passou pelos sinais vermelhos e não abrandou nas lombas.
-É ali?
-Deve ser, está ali o carro da PSP.
-Ok.
A ambulância estacionou por trás do carro da polícia, os dois técnicos saíram e agarraram no material. Subiram as escadas e entraram no apartamento. O N dirigiu-se imediatamente ao quarto de onde vinha o som de vozes, quando entrou bateu com os olhos no P.
“Gaita, parece perseguição.”
“Ainda bem que foi ele que veio…” pensou o P.
O N foi ter com a A, o colega seguiu-o.
-Boa tarde, sou o N. Este é o meu colega, o R.
-Olá… Respondeu a A, ainda a soluçar.
-Vamos tratar de ti e levar-te ao hospital está bem?
Os técnicos da ambulância avaliaram a A, arrumaram o material e ajudaram-na a ir para a ambulância.
Um dos agentes encaminhou o P até ao carro.
-Bem, nós vamos para a esquadra, a equipa de perícia já vem a caminho. Alguém depois vai ter com ela ao hospital para recolher os relatórios médicos. Disse o agente.
-Ok, até mais logo. Respondeu o N
-N! Gritou o P antes de entrar no carro da polícia.
-Diz
-Trata bem dela, sim?
-Não te preocupes.
O P sentou-se no banco de trás e o carro da PSP arrancou em direcção á esquadra.
A A deitou-se na maca e a ambulância arrancou em direcção ao hospital.
-Então, tu é que és o N?
-Sou…
-O P tem falado de ti.
-A sério?
-Sim, acho que ele gostou bastante de ti…
-Pois…
-Ele chegou a falar contigo hoje?
-Sim, fomos beber café.
-Ele deve ter ficado muito contente.
-Talvez…
-Então, não correu bem?
-Correu, mas…
-Que é que se passou?
-Ele queria o meu número de telefone…
-E não lhe deste?
-Eu não quero que ele crie expectativas às quais não posso corresponder…
-Mas… Não tens de namorar com ele, podes apenas tornar-te amigo.
-E será que ele quer só um amigo?
-Ele só quer alguém em quem confiar, este ano tem sido péssimo. Sou a única amiga que ele tem, não há mais ninguém que lhe ligue, que se preocupe, percebes?
-Percebo, sei bem o que é…
-Então, será assim tão difícil dar-lhe o teu número para que ele possa falar contigo de vez em quando? Ele sabe que nem toda a gente é gay, acho que não está a partir do princípio que sejas. Acho que fica contente se se tornar apenas teu amigo…
O N arrancou um pedaço de papel dos relatórios e rabiscou lá um conjunto de algarismos.
-Pronto, toma. Quando estiveres com ele dá-lhe isso, é o número do meu telemóvel.
-Fica descansado, eu entrego-lhe.
-Só espero não me arrepender…
-Não te preocupes.
-N, estamos a chegar! Avisou o R.
-Ok.
A ambulância parou a entrada das urgências, ajudaram a A descer, passaram os dados na triagem. O N despediu-se e voltaram para a base.

Fobia: Capitulo VII

A A estava sentada no sofá da sala a comer pipocas e a ver um documentário sobre animais.
A campainha tocou. Pousou a tigela das pipocas, enfiou os chinelos cor-de-rosa nos pés e foi abrir a porta.
Costumava ser muito descuidada e então abriu a porta sem espreitar pelo óculo.
-Olá querida, o teu amiguinho P está por aí?
-Não, saiu.
-Oh pá, se o nosso bichinha preferido não está cá temos de nos divertir contigo, então. Aproveitamos e esperamos por ele.
-Deixa-te de cenas! Ou se metem a andar daqui para fora ou eu chamo a…

A A nem teve tempo de acabar a frase, o cabecilha do grupo que tantas vezes espancava o P empurrou a porta de rompante e tapou-lhe a boca. Entrou pela casa a dentro, seguido dos três rapazes, enquanto a arrastava.

-Já que o bichinha não te quer para foder, aproveitamos-te nós.

A A lutava em vão para se soltar, acabaram por a arrastar para o quarto e trancar a porta.

O P continuava sentado no café, a pensar na conversa que tinha tido com o N.
“Mas que raio queria ele dizer com aquela coisa de saber como é fingirmos ser quem não somos?”
Levantou-se, saiu do café e dirigiu-se para casa.
Quando se aproximava do prédio viu que á porta estava parado um carro da policia.
“Que raio, mas o que é que se passa ali?”
Entrou no prédio e subiu as escadas, a porta da casa que partilhava com a A estava aberta ouvia vozes ao fundo, vindas do quarto da A, continuou a andar em direcção ao mesmo.
Quando estava em frente à porta viu a A sentada em cima da cama, embrulhada num cobertor e com a cara ensopada de tanto chorar.

-Então e quantos eram? Perguntava um dos policias para a A.
-Eram quatro…
-Muito bem, vamos precisar que os descreva.
-Sim…

Nisto o P entrou pelo quarto.
-A, o que se passa?
-Quem é você? Perguntou um dos agentes.
-É o meu colega, mora aqui comigo.
-O que se passou!? Perguntava o P, começando já a desesperar.
-Os… Ah… Aqueles rapazes que te andam constantemente a bater… Respondeu a A, enquanto soluçava com o choro
-O quê!?
-Estiveram aqui… Vinham à tua procura…
-Mas… Não, isto não pode estar a acontecer… Soltou o P com ar de desespero.
-Bem, vamos chamar a ambulância para a sua colega. No entanto você também vai ter de nos acompanhar à esquadra.
-Eu, mas porquê?
-Uma vez que também os conhece pode ajudar-nos a identifica-los.
-Ah… Está bem…

O outro agente chamava a central pelo rádio, para lhes pedir que enviassem a ambulância.

-Desculpa, A… É tudo culpa minha…

Fobia: Capitulo VI

-Então vamos precisar de meter mais compressas e temos de trocar estas garrafas de oxigénio.
-OK, N.

Os dois técnicos encontravam-se na célula sanitária da ambulância a reabastecer os equipamentos. O P aproximou-se pela porta lateral.

-Boa tarde…
-Ah… Olá… Respondeu o N, enquanto lutava para encaixar o monitor de sinais vitais no suporte.
-Então já tiveste alta? Perguntou o J.
-Já, o médico deu-me alta com a condição de não negligenciar a medicação.
-Ah, ainda bem. Quer dizer que não tiveste nada de mais.
-Não.
-Então e o que te traz por cá?
-Ah… Bem… Gostava de falar com o seu colega.

O N virou-se, com ar de surpreendido.

-Comigo?
-Sim.
-Então e o que é que queres falar comigo?
-Hum… Não dá para falarmos noutro sítio?
-Se eu estiver aqui a mais digam. Resmungou o J, enquanto arrumava mais umas coisas.
-Não é a questão de estar a mais ou não… Mas… A que horas sais? Podíamos ir beber um café.
-Bem, saio daqui a meia hora.
-Então posso esperar por ti ali à porta da base e depois vamos a qualquer lado, ok?
-Por mim tudo bem…
-Ok. Então até já.

O P afastou-se da ambulância e foi para a porta de saída da base.
O N sentou-se na maca da ambulância.

-Porra, odeio estas cenas.
-Porquê, N?
-Porque sim, sei lá. Não achas estranho?
-Estranho? Quantas vezes já houve gente a vir aqui agradecer-nos por lhes termos salvo a vida?
-Sim, mas isto é diferente.
-Porquê?
-Não sei, é um feeling que eu tenho.
-Deixa-te de cenas, vai tomar café com o miúdo. Ele não te há-de fazer mal.
-Pois…

O N e o J apressaram-se a arrumar o restante material dentro da ambulância e a preencher os relatórios. O N foi-se agarrou no seu saco, e saiu da base. O P estava à porta à sua espera.

-Então, vamos? Perguntou o N
-Sim, vamos lá.
-Então e queres ir onde?
-Há um café um bocado mais à frente, dá para irmos a pé.
-Siga.

Acabaram por caminhar rua abaixo, lado a lado. Para quebrar um bocado o gelo foram falando de coisas banais como o tempo. Já no café, sentados na esplanada o P resolveu ir directo ao assunto.

-Sabes… O que eu queria falar contigo era…
-Sim, diz lá. Fiquei intrigado.
-É que… Durante quase a minha vida toda andei a fingir ser uma pessoa que não sou, só para agradar à minha família e aos meus amigos, só para agradar a pessoas que nem sequer conheço. Vivi muito tempo com medo de perder tudo se chegasse a ser quem sou.
-Sim… Conheço o sentimento… Respondeu o N enquanto fixava os olhos na chávena de café.
-Conheces? Perguntou o P, com ar de surpresa
-Esquece… Continua.
-Bem. Há uns tempos numa aula, um professor meu estava a fazer uns comentários em relação à orientação sexual das pessoas, falava da homossexualidade como se fosse uma doença. Eu fiquei extremamente revoltado e acabei por não me conter, acabei por rebentar e dizer que não era doente.
-Hum… muito subtil…
-Sim, de facto. Mas curiosamente depois de o dizer em frente a cinquenta pessoas senti-me aliviado, pensava que iria poder começar a ser eu. Sem ter de me esconder e que isso iria tornar mais fácil encontrar alguém, alguém que não me fizesse sentir sempre tão sozinho.
-Mas…
-Mas na turma há um grupo de alunos que não gosta nem tolera muito bem os homossexuais, começaram por me gozar a torto e a direito por toda a escola, depois as agressões, enfim até ao dia em que me foste buscar lá no beco.
-Mas participaste deles à polícia não participaste?
-Sim, mas quando disse ao polícia que estava a preencher os relatórios que sou homossexual ele simplesmente deixou de dar importância ao caso.
-Então, podes participar do polícia também.
-Isso não resolve nada, se a polícia os prender ou fizer alguma coisa, existem outros grupos como eles que acabariam por se vingar em mim.
-Não gostava de estar na tua pele. Já consideraste mudar de cidade, ou de escola?
-Não quero fugir aos problemas… E muito menos…
-Muito menos…?
-Aos meus sentimentos.
-Sentimentos?
-Sim… Tu… Foste a única pessoa, para além da rapariga com quem vivo, que não me olhou de lado quando soube que eu era gay.
-Não tinha porque o fazer.
-Sim. Trataste-me com respeito, e eu gostei muito disso. E não sei porquê, senti-me muito bem ao pé de ti naquele dia, assim como me sinto muito bem agora.
-Mas… P…
-Espera, eu só gostava de te conhecer melhor, gostava que nos tornássemos amigos.
-Mas…

Nesse preciso momento o telemóvel do N tocou.

-Estou? Ok, vou já.
-Que se passa? Perguntou o P.
-O colega que entrou ao serviço depois de mim não está muito bem, tenho de o ir substituir porque não há mais ninguém disponível. Desculpa… Acabamos a conversa noutro dia.
-Ok… Posso ficar com o teu número?
-Desculpa… Mas sempre que quiseres falar sabes onde me encontrar.
-Ok…

O N saiu do café com passo acelerado em direcção à base.
“Salvo pelo telefone… Não me posso envolver nisto, simplesmente não posso.”
O P ficou sentado no café a rever vezes sem conta a conversa que tinham tido.

Fobia: Capitulo V

-Bichinha! Anda cá ao papá! Eu e os meus amigos ainda não nos divertimos o suficiente contigo…
-P, acorda!
-Hum… Merda outro pesadelo…
-Sim, dava para te ouvir gemer na outra ponta da casa.
-Nem agora este inferno acaba.
-Vá tens de tomar os comprimidos. O médico deu-te alta com a condição de fazeres a medicação toda.
-Sim, mamã.
-Vê lá se a mamã não te dá um puxão de orelhas.
-Sabes A, tenho pensado muito naquele rapaz da ambulância.
-Mau… temos paixoneta ou quê?
-Não é isso… É que…
-O quê?
-Ele lidou com o facto de eu ser gay de uma maneira tão normal, e aconselhou-me a falar com a policia.
-Sim, nada que eu não te tivesse dito já.
-É verdade…
-E então?
-Não sei, gostava de falar com ele outra vez…
-Então, passa lá pela base das ambulâncias um destes dias.
-Acho que vou fazer isso, sim.
-Podias ir hoje, há três dias que não sais casa… Se quiseres eu vou contigo.
-Não, eu gostava de ir sozinho.
-Claro, por mim tudo bem.

A A deixou o quarto e foi para a sala estudar. O P levantou-se da cama, ainda com algumas dores, vestiu-se, passou as mãos pela cabeça para ajeitar o cabelo, agarrou nas chaves, na carteira e saiu de casa em direcção à base das ambulâncias.

Fobia: Capitulo IV

-Então J, o que temos?
-Masculino, vinte anos, vítima de agressão.
-Bolas, anda tudo à porrada.
-Se calhar lutaram por causa de alguma declaração sobre o Papa.

Os dois técnicos riam-se na ambulância enquanto o J conduzia pela cidade.

-Está ali o carro da PSP. Deve ser ali.
-Ok.

O J estacionou a ambulância antes do carro da policia. O N foi o primeiro a sair e a tirar os sacos, dirigiu-se ao agente mais graduado.

-Boas, quem o encontrou?
-Um homem que já interrogamos, identificamos e deixámos ir. Diz que o encontrou na posição em que está e que viu um grupo de rapazes a afastar-se.
-Ok.

O J já estava junto do corpo do rapaz, encontrava-se de barriga para baixo, sujo de lama, de cuspo, e viam-se pequenas hemorragias.

-Oi, estás-me a ouvir?
Não obteve resposta.
-Tem perda de consciência, N.
-Ok, vamos rolá-lo em bloco.

Os dois técnicos colocaram o rapaz de barriga para cima, garantindo a estabilidade da coluna cervical.
-Ok pupilas normais.
Continuaram a avaliação do rapaz e colocaram-no na ambulância, o carro da PSP seguiu-os para que depois pudesse interrogar o rapaz.
-J, vai devagarinho e evita os buracos, não sabemos se existe algum traumatismo da coluna portanto vamos tentar mantê-lo o mais estável possível.
-Ok, N.
O rapaz que estava deitado na maca começou a reagir, e acabou por abrir os olhos.
-Bom dia, como te chamas? Perguntou o N que estava de pé ao lado dele.
-P… O que se passa?
-Bem, chamaram-nos porque te tinham encontrado inconsciente na rua.
-O que … o que aconteceu?
-Parece que foste agredido. Lembras-te de alguma coisa?
-Ah… sim. São uns colegas meus…
-Colegas?
-Sim, estudam na mesma faculdade que eu.
-Então e bateram-te porquê?
-Porque eu tenho a mania que posso ser como sou.
-Desculpa, não estou a perceber.
-É que eu sou gay, e eles pelos vistos não gostam muito disso.

O N fechou os olhos por um minuto, respirou fundo. Como se o tivessem acabado de o levar para um pesadelo, suspirou e perguntou.

-E então, vais continuar nisto? Não achas que tens de tomar uma atitude?
-Não posso mudar a cabeça das pessoas…
-Não, mas podes apresentar queixa deles.
O P suspirou, sabendo que era o que tinha de fazer mas com consciência de que as consequências de o fazer poderiam ser ainda mais graves.

-N, estamos a chegar. Gritou o J do outro lado da ambulância.
-Ouviste, P? Já estamos a chegar ao hospital, a polícia depois vai-te fazer umas perguntas, vê lá o que dizes.
-Ok… Obrigado por tudo.
-Não, é o nosso trabalho.

A ambulância entrou nas urgências do hospital seguida do carro da polícia, os dois técnicos apressaram-se a tirar o rapaz de dentro da ambulância e a levá-lo à triagem.

Fobia: Capitulo III

-Pronto P. Melhor?
-Sim, obrigado A.
-Olha P vou sair, preciso de ir comprar umas coisas para a escola.
-Ok, eu também vou dar uma volta daqui a mais uns minutos.
-Está bem, vê lá se te animas.

A A agarrou no MP3 e bateu com a porta. Saiu, como sempre, a cantar as músicas que ia ouvindo ao mesmo tempo no reprodutor.
O P levantou-se da cadeira da cozinha, arrumou as chávenas do chá e limpou os pratos das torradas. Calçou as sapatilhas, agarrou nas chaves e saiu.
“Boa, não tenho grandes sítios onde ir. Vou só andar um bocado e depois volto para casa.”

O P tinha o hábito de passear pela rua, sem rumo, quando precisava de esvaziar a cabeça ou esquecer alguma coisa. Passeava-se pela cidade, observando as pessoas, imaginando as vidas que tinham. No entanto o seu passeio foi interrompido.
– P!

O P voltou-se para ver quem era, mas desejou de imediato não o ter feito.
“Merda, só me faltavam estes.”

-Onde vai a nossa bichinha preferida?
-Porra, deixem-me em paz. O que é que vocês querem afinal?
-Nada Pêzinho, só nos queríamos divertir contigo um bocadinho mais.

Os quatro rapazes que o tinham espancado há umas horas atrás na faculdade, estavam agora com ele numa rua praticamente deserta por onde só passava um carro ou outro. Um deles meteu-lhe o braço por cima dos ombros.

-P, porque não vens connosco ali à frente para falarmos melhor.
-Não, deixem-me em paz.

Sem que tivesse tempo para reagir já outros dois o puxavam pelos braços. Levaram-no para uma zona ainda mais recatada da rua e atiraram-no contra o chão.

-Então P. É agora que as coisas se resolvem.
-Porra pá! Deixa-me em paz, o que é que queres afinal?
-Quero que a escumalha como tu, as aberrações como tu desapareçam da terra de uma vez por todas, não basta os emigrantes, os judeus, os pretos e ainda temos de gramar também com paneleiros na faculdade? O mundo está podre por causa de merda como vocês.
-E então que queres fazer? Estamos aqui também temos de viver como vocês.
-Não P, não têm. Porque nós estamos cá para garantir que isso não acontece.

E então, sem que o P tivesse tempo de dizer fosse o que fosse em resposta, um dos rapazes deu-lhe um pontapé na nuca deixando-o imediatamente inconsciente no chão. Depois os quatro divertiram-se a pontapeá-lo e a cuspi-lo.