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Ficcialidade

“N, acorda!”, “Hm?..”, “Acorda! Temos uma saída”. “Oh que merda está bem.”
Eu e o N corremos direitos à Viatura Médica, eu ocupei o meu banco no lugar do pendura, ele sentou-se atrás do volante. Desta vez não se benzeu antes de entrar no carro, algo que fazia sempre antes de se sentar ao volante.
Deu à chave, ligou os rotativos, os strobes, e arrancámos.

Eu lutei para me segurar, como sempre ele era bastante agressivo quando conduzia em emergência, era rara a vez que não sentia vontade de vomitar quando andava ao lado dele na vespa da matutano, como ele lhe gostava de chamar.

Eu dava suaves toques na sirene, afinal eram 3:00, e o transito não era assim tanto, mas dos poucos que andavam pela rua havia sempre algum engraçadinho que resolvia não nos dar prioridade ou atravessar-se à nossa frente quando passávamos nos sinais vermelhos. Sempre admirei a maneira como o N conduzia, olhos bem fixos na estrada, não valia a pena falar para ele nessas alturas, parecia que se desligava de tudo e so via a estrada, os outros carros e o acelerador.

Lembro-me de ligar para o CODU a perguntar se a autoridade já se encontrava no local, foi-me dito que sim, tratava-se de um ferimento de bala.

Passadas as ruas da cidade, chegamos finalmente ao local. No chão jazia um individuo branco, aparentava estar perto dos 30, os T.A.E. que chegaram ao local primeiro já lhe tinham colocado uma máscara de balonete e faziam compressão directa na hemorragia, situada no hemitórax esquerdo. Ao olhar para a poça de sangue no chão, apercebi-me logo de que haveria pouco a fazer, quem quer que fosse, já tinha perdido muito sangue. Apressei-me a tirar os sacos do carro e a correr para junto do rapaz, olhei por cima do ombro para trás na esperança de ver o N a correr também, mas não. Por incrível que fosse, ele ali estava, o N, branco como a cal de olhos esbugalhados no rapaz, com o reflexo das luzes da cidade conseguia ver o suor a escorrer-lhe pelo rosto, a expressão que fazia era de profunda agonia.

“N! Que merda estás a fazer? Mexe-te!”, “Não…”, “Não o quê? Mexe-te porra!”

Percebi que ele tinha bloqueado completamente, desisti, corri para o rapaz. Perguntei a um dos T.A.E. qual era a situação, passaram-me os parâmetros vitais que já tinham tirado, o prognóstico não era bom. Precisava de lhe colocar um soro para prevenir a hipovolemia, de lhe dar adrenalina para o tirar da bradicardia em que se encontrava e prevenir que entrasse em paragem cardio respiratória. Liguei um monitor ao rapaz, queria mante-lo vigiado enquanto preparava os soros, liguei os eléctrodos, coloquei a braçadeira para verificar a T.A. e liguei o saturómetro.

A bradicardia acentuava-se mais agora, e as saturações continuavam a descer. Comecei a preparar os soros, esta era uma função do N, mas uma vez que ele agora estava de joelhos, a olhar fixamente para o chão, tive de ser eu a faze-lo.

“Está a entrar em paragem!”, gritou um dos T.A.E. Apressei-me a preparar a injecção de adrenalina, deixando o soro de lado, “Inicia manobras”, disse o outro T.A.E. para o colega. Um deles iniciou compressões, enquanto o outro continuou a tentar controlar a hemorragia, eu fui buscar o laringoscópio e o Ambu. Entubei o jovem, e comecei a ventila-lo. “N! Porra! Sem ti não dá! Vamos ter o colocar na maca e arrancar para o hospital!”, continuei sem resposta, disse a um dos T.A.E. para colocar bastantes compressas de abdómen sobre a zona da hemorragia e para as prender com adesivos e de seguida fazer ele as compressões enquanto o colega ia tirar a maca, assim fizeram. Com um bocado de esforço e complicações com os cabos do monitor e o tubo do O2 do Ambu lá conseguimos colocar o rapaz na maca, os T.A.E. colocaram-na na ambulância enquanto o ventilava. Dentro da ambulância um deles continuava a fazer compressões enquanto o outro recolhia o meu material e o deles para dentro da ambulancia. Um dos T.A.E. lembrou-se de tirar as compressas para ver como estava a hemorragia, é claro que o coitado do rapaz que já tinha perdido grande quantidade de sangue acabou por perder ainda mais. Preparava-me para desistir e declarar o óbito, quando o N numa fúria enorme rompe pela ambulância dentro “Foda-se!! O que estás a fazer, mete-lhe a merda de um soro, dá-lhe a porra da adrenalina, continua a ventilar, fazer compressões e metam este chaço no hospital rápido”, ele olhava para mim com um olhar que não lhe conhecia, freneticamente começou a preparar o soro, puncionou a veia, e pendurou-o no suporte da ambulância,  começou a preparar a injecção de adrenalina e enquanto o fazia pude ouvi-lo dizer baixinho com os olhos fixos na seringa “Por favor P, depois de tanta merda, não me morras agora…”

Aí sim, percebi tudo o que se tinha passado, pedi a um dos T.A.E. para ventilar o homem, preparei o desfibrilhador, o N deu-lhe a injecção de adrenalina o outro T.A.E. continuava as compressões. O N disse a um para passar para o volante para meter asas nas rodas da ambulância, e ao outro para não parar as compressões nem que os braços lhe secassem, ouvi as sirenes a tocar e as rodas da ambulância a chiarem pela cidade fora, sabia que em menos de 5 minutos estaríamos no hospital. Todos demos o nosso melhor para salvar a vida daquele rapaz, daquele que tinha deixado o N como nunca o vira antes.

A entrada do hospital o N gritou para o enfermeiro da triagem, “Este vai para os directos”, o outro tentou dizer que não era bem assim, mas lá deve ter percebido que não tinha escolha, em menos de 10 minutos o rapaz que tinha sofrido um tiro de bala já ia a caminho do bloco operatório, os cirurgiões e os enfermeiros aceleravam o passo em direcçao ao elevador. Eram agora 3:35, perguntei ao N se voltávamos para a base, ele disse que não. Que não estava em condições de fazer mais nada naquela noite. Não o podia censurar, liguei para o CODU, dei a viatura como INOP.

Por volta das 7:00 apareceu um colega meu junto do N, eu estava no balcão do bar do hospital a beber café. Ao longe consegui ouvir o N a gemer um “Não…  Não pode ser…” Passou por mim com um olhar apagado, direito à porta de saída do hospital, agarrou na viatura, arrancou a uma velocidade louca como eu nunca vira ninguém a conduzir, ouvi as rodas a chiarem, carros a apitar. Passada uma hora recebi um telefonema que nunca tinha pensado vir a receber. O N tinha tido um acidente, encontrava-se em estado critico, ia ser transportado de helicóptero para um hospital melhor preparado para situações como a dele.

Dois dias depois, vesti o meu fato preto, dirigi-me à capela onde ia ser o velório, dei os meus sentimentos à irmã do N, o caixão estava fechado, devido ao mau estado do corpo. Á minha volta vi muita gente, inclusive uma mulher cujo parto o N tinha ajudado há uns meses num café em plena baixa de Lisboa quando se encontrava fora de serviço. Recordei os bons momentos que tinha passado na viatura com ele, das gargalhadas, dos medos, e das incertezas.

Voltei para casa, para junto da minha mulher e do meu filho. O meu M, de 6 anos veio ter comigo e perguntou, “Então pai? Foi aquele teu amigo que em vez de namorar meninas namorava um menino que morreu?”, eu respondi-lhe que não, que quem tinha morrido tinha sido um amigo insubstituível.

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