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Deambulação

São 10 horas, para mim é como se fossem ainda 5 ou 6 da manhã.
Juro, em vão, que nunca mais saio até às 4 da manhã.

Até ficava na cama mais um bocado, no quente, mas tenho coisas a tratar no banco.
Hum.. Só me apetece vomitar, não estou habituado a beber, qualquer coisa me deixa assim.
Passo a água fria pela cara, olho-me ao espelho, devia fazer a barba mas não me apetece, também não há paciência para o pente e para o gel, passo só a mão pelo cabelo e pronto, está Ok.

Visto a mesma roupa que usei ontem, ainda cheira a tabaco, de cigarros que não fumei. Sinto o corpo dormente, dói-me quando me dobro para calçar as sapatilhas, visto o casaco que toda a gente tanto adora, e do qual eu só gosto por me proteger do frio. Pego na carteira, nas chaves, e no telemóvel, a primeira está quase vazia como sempre, meia dúzia de trocos que nem para dar de esmola a um mendigo servem, o telemóvel já sei que se manterá mudo ou se tocar é para me lembrar de contas que faltam pagar devido ao avultado ordenado que consigo tirar num emprego que tanto adoro, note-se a ironia.

Saio a porta e desço as escadas do prédio, em cada piso que vou passando consigo ouvir os sons de vidas comuns e cheias ou ainda mais comuns e desfeitas, o bebé do segundo andar a chorar enquanto a mãe lhe canta para o acalmar, a rapariga do primeiro andar que geme de dores, provavelmente tem o corpo dorido das tareias que leva do namorado de quem não se quer desfazer. No rés-do-chão consigo ouvir o som da televisão, o meu vizinho adormeceu outra vez a ver programas para reformados, só espero que desta tenha desligado o fogão.

Ao passar pela porta do prédio todos esses sons se calam, agora ouvem-se os carros, as motas, o vento, os cães a ladrar, os mesmos que ladram toda noite e que despertam a ira de quem quer dormir.

O vento gelado e seco do inverno bate-me na cara, faz-me sentir vivo. Meto os headphones nos ouvidos e ligo o reprodutor de MP3 do telemóvel. Subo a rua, passo por gente da minha idade, com quem cresci. Coitados perderam demasiado tempo, em sessões de puro surrealismo enquanto fumavam pedras dissimuladas entre o tabaco, e agora esse surrealismo tornou-se constante, e ve-se bem reflectido nos seus olhos, e na enorme quantidade de tempo livre que têm. Dizem-me adeus, com sorrisos amarelos, porque afinal sempre gostaram de mim. Eu simulo também um sorriso, pedindo aos céus que eles não me torturem com conversas longas. Cheguei ao pé do mercado, a carne que se vendia aqui a hora a que regressei a casa já cá não se encontra, provavelmente foram dormir, depois de uma noite a oferecer boémia a outros em troca de míseros trocos que terão de chegar para matar a fome aos filhos de algum pai desconhecido.

Continuo, passam por mim duas raparigas, olham-me fixamente. Tenho vindo a descobrir que o meu ar mais desleixado deve libertar algum tipo de feromonas que tende a atrair criaturas do sexo oposto. Sorrio-lhes, porque sei que também nunca mais as vou ver.

Atravesso a estrada, sem olhar, e sem ouvir. No estado em que estou acho que levar uma panada de um carro só me poderia acordar. Passo em frente ao quiosque, gente, cuja idade não perdoou, comenta os últimos desenvolvimentos do futebol, das actrizes,  falam com orgulho e dos filhos e dos netos.

Continuo, vejo ao fundo mais uma cara conhecida, mudo para o outro lado do passei para evitar encontros, a sério hoje não me apetece falar com ninguém.

Ando mais uns metros, passo em frente ao meu antigo trabalho, um sitio onde deixei muito suor e lágrimas, felizmente nunca sangue. De onde saí por vontade, onde deixei e levei saudades. Entro no banco, a fila é enorme, à minha frente estão duas raparigas, de mão dada, oiço uma dizer para a outra “A noite de ontem foi espectacular.” depois soltam ambas risinhos, semelhantes aos das crianças quando sabem que fizeram alguma maldade inocente.

A porta do banco fechou-se por trás de mim, vejo um dos empregados a levantar-se com um ar de pânico. Sem perceber o que se estava a passar olho para trás,  dois encapuçados. Um carregava uma caçadeira, o outro uma pistola ou que o fosse, nunca percebi nada de armas.

As miúdas que estavam a minha frente apertam as mãos com mais força,  um dos encapuçados grita “Tudo no chão!” e dá dois tiros para o ar. Sentei-me no chão encostado à parede, as miúdas sentaram-se mesmo ao meu lado, abraçadas, uma mulher que estava com um bebé ao colo sentou-se logo a seguir a elas, cobrindo a cara da criança com o casaco. Os restantes foram-se encostando todos à parede. Um dos encapuçados dirigiu-se ao balcão “Esse dinheiro que está ai, todo para dentro deste saco!” enquanto apontava a arma ao empregado.

O dinheiro que estava espalhado pela parte interna do balcão devia ser  dos depósitos que estavam a ser feitos, dada a quantidade de pessoas que estavam no banco não houve tempo para o guardar.

O banqueiro, trémulo, apressou-se a colocar os maços de notas de 100, 200, 50, 10 e de 20 euros dentro do saco do assaltante. O outro estava a porta, com a caçadeira a apontar para baixo e a certificar-se de que ninguém mais entrava.

Do outro lado dos vidros consegui ver um homem a olhar perplexo para dentro do banco e a pegar no telemóvel, pensei “Boa, isso, chama a policia, lixa-nos…”.

Depois de ter o saco cheio, o assaltante decidiu começar a recolher os nossos bens, começou na ponta oposta àquela em que eu estava, gritou ao homem “Seu velho de merda! Larga tudo para aqui, dinheiro, jóias, relógios, tudo!” o pobre sexagenário lá teve de depositar todos os haveres dentro do saco.  O encapuçado foi retirando tudo a todos, um por um e enquanto o fazia eu já ouvia ao fundo as sirenes da Policia.

“Merda J’! Vem aí a bófia, agora nunca mais nos despachamos daqui!” infelizmente não fui o único a ouvi-las, “Calma caralho! Enquanto cá estiver esta gente toda dentro eles não podem fazer nada.” O J’ era o assaltante que já estava perto das míudas, numa força tremenda arrancou uma delas do chão pelo braço, passou o braço à volta do pescoço da rapariga, apontou-lhe a arma à cabeça e dirigiu-se à porta.

Os carros da polícia chegaram à porta do banco e os agentes lá se apressaram a sair dos carros e a refugiarem-se junto dos mesmos na esperança de não serem atingidos por alguma bala perdida. “R’! ‘Mor!” gritou a rapariga que tinha ficado no chão, “Cala-te! Fufa de merda! Estamos fodidos, mas olha que vos mato a todos antes de ir dentro” disse o J’.

Eu deixei-me ficar, não havia nada que pudesse fazer.

Segurando a rapariga, dirigiu-se à porta do banco, “Nós não queremos magoar ninguém, só queremos que nos deixem sair daqui com o dinheiro!”, “Isso não podemos fazer!”, respondeu um dos agentes.

O J’ voltou para dentro, sem nunca virar costas aos policias, “J’, Como é que vamos fazer isto?” perguntava o outro, que parecia bastante mais nervoso, “Tem calma, não stresses..” e então colocou-se por detrás da vitrina do banco, continuando a segurar a rapariga e a apontar-lhe a arma à cabeça para que todos os agentes da policia que se encontravam do lado de fora a pudessem ver.

Olhei para o tecto, fechei os olhos e respirei fundo, a desejar que os deixassem sair com o dinheiro e nos deixassem a todos sair dali para fora, então fui obrigado a abri-los ao ouvir o som de um tiro e o estilhaçar de vidros.

Instintivamente olhei para a porta, o encapuçado da caçadeira, encontrava-se deitado no chão segurando a arma com as duas mãos acima da cabeça. Olhei para o lado, a miúda que tinha ficado sentada corria agora em direcção à vitrina, no chão estava o assaltante, caído de costas, coma a R’ caída por cima dele. Via-se uma poça de sangue a desenhar-se no chão.

Corri para o assaltante da caçadeira, arranquei-lhe a arma das mãos e atirei-a para a outra ponta do banco, depois fui ter com as miúdas. A R’ já tinha sido tirada pela C’ de cima do assaltante, o sangue que estava no chão era dela, não dele, no entanto ele também estava inconsciente. Ajudei a C’ a controlar a hemorragia da R’, todas as restantes pessoas que estavam dentro do banco apressavam-se a sair,ao mesmo tempo que os agentes tentavam entrar.

Ouvi uma sirene, percebi que era de uma ambulância. Entraram pelo banco quatro agentes, algemaram e levaram os dois assaltantes. Um quinto agente, aparentemente mais velho correu em direcção a nós, quando lá chegou parou e de olhos fixos na R’ soltou um “Filha…” segundos depois chegaram também os T.A.E. e a equipa médica da VMER.

Deixei a miúda e fui à WC do banco lavar o sangue que tinha nas mãos. Lavei a cara, olhei-me ao espelho e lutei para perceber se tudo isto tinha realmente acontecido ou se teria sido um sonho. Saí do WC, olhei à volta. Vi a vitrina partida, o sangue no chão, a porta escancarada para trás e um agente que recolhia as armas e o saco do dinheiro. Lá fora os que tinham sido feitos reféns falavam com os agentes e com um ou dois reporteres que lá estavam, as viaturas do INEM já iam a sair do local.

Consegui ouvir ao fundo o pai da R’ perguntar à C’, “És amiga da minha filha é?”, “Não, sou namorada”. O homem fez uma expressão de surpresa e com as lágrimas a correr-lhe pelo rosto acabou por soltar um “Bem vinda à família então, vamos para o hospital e ver se tudo corre pelo melhor.”

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