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Fobia: Capitulo XII

– Porra, não o podiam deixar fora disto!?
– Cala-te! Ele é que veio atrás de ti? Agora não tentes proteger o teu namoradinho, se ele é como tu também está a mais!
O N, conseguia ouvir a discussão entre o P e o líder do grupo, ainda meio zonzo da pancada sentiu o corpo pesado e preso. Abriu os olhos e sacudiu a cabeça, estava amarrado a uma cadeira, ao seu lado, também amarrado, estava o P. Á frente de ambos estava a o líder do grupo, olhava agora para o N, com um sorriso cínico.
– Então, vinhas salvar o namoradinho mas acabaste por te lixar também não é?
– Ele não é meu namorado! – Gritou o N.
– Oh a sério? Então porque é que te deste ao trabalho de arriscar a vida por ele?
– Porque… Porque sim! Eu não tenho de te dar justificações nenhumas, acho bem que nos deixes ir embora ou vais-te arrepender desta merda!
-Não, não. Só há duas pessoas que se vão arrepender, tu e o teu namorado.
– Ai sim? E vais fazer o quê?
– Por um fim á vossa miséria…
– É mesmo coisa de cobarde…
-Chama-me o que quiseres, eu vou lá fora fumar um cigarro, os meus rapazes ficam aqui para ter a certeza de que vocês recebem o melhor tratamento possível.
O líder do grupo saiu do barracão e foi para a porta fumar. No interior os outros três elementos do grupo divertiam-se a espancar consecutivamente o P e o N.
Após longos minutos de agressão o líder do grupo voltou a entrar. Pegou numa pá, que estava encostada à parede, do lado de dentro perto da porta, e atirou-a a um dos outros rapazes.
– Vai cavar as covas, não podemos deixar os corpos aqui.
O rapaz saiu do barracão pela porta de trás. O líder então mandou os outros dois irem um bocado para a rua.
Puxou uma cadeira para a frente do P e do N, agarrou na arma e sentou-se, fitando-os nos olhos.
-Preciso que me respondam a uma coisa…. – Disse ele para ambos.
– Fode-te! – Respondeu o P.
– Porque é que escolhem ser assim? Se sabem que Deus vos odeia por isso, porque é que escolhem?
– Quem é que te disse que deus nos odeia? – Respondeu o N, que tinha dificuldade em falar devido à quantidade de sangue que tinha dentro da boca.
-Diz a Bíblia.
-Ai é? Ou será que é a interpretação que a igreja católica faz dela que o diz?
– Talvez, mas de qualquer maneira, nós fomos feitos para procriar, para nos reproduzirmos, e vocês não o podem fazer, logo não servem para nada.
-Ai sim? Então e os heterossexuais que não podem ter filhos, por serem inférteis, também queres acabar com eles?
– É diferente…
-Não, não é.
-É sim, esses são normais. Vocês são aberrações, são pessoas que nasceram com defeitos, que metem em risco a nossa raça. Achas que eu quero viver num mundo onde os meus filhos vêem homens a comer-se na rua?
– É melhor viverem num mundo onde o pai é um assassino?
– É por uma boa causa….
– E se um dos teus filhos for homossexual, vais matá-lo?
– Não, mas dou-lhe uma descomunal tareia e corro com ele de casa, depois mato-me.
– É esse o valor que dás à tua vida?
O outro sorriu, puxou a culatra da arma atrás e encostou a ponta à testa do P.
-Uma vez que este esteve tão calado, deve ser por ter mais pressa que tu. Vou fazer-lhe um favor, ele vai primeiro.
O P não conseguia falar, a sua respiração ficou mais rápida e começou a chorar.
-Não faças isso. – Disse o N – Depois vais preso, passas a vida atrás das grades, de que é que te serve?
-Mas… Nunca ninguém vai saber, porque ninguém se rala com duas bichas como vocês. E agora acabou a conversa.
Com a arma ainda colada à cabeça do P, o rapaz olhou-o nos olhos, encostou o indicador ao gatilho. O N cerrou os olhos e desejava poder tapar os ouvidos, mas não podia.

Acabou por ouvir finalmente o som de um tiro. Sentiu um arrepio por todo o corpo. Abriu os olhos.
Ficou perplexo, quando à sua frente, viu o líder do grupo a sangrar da boca, uma ferimento de bala na zona anterior do tórax, os braços caídos ao longo da cadeira com a arma a apontar para o chão.
Olhou para o lado, para ver se o P estava bem. Este continuava de cabeça baixa, de olhos fechados, a chorar.
-P, abre os olhos. Está tudo bem…
O portão do barracão abriu-se, entraram três agentes da policia judiciaria que de imediato soltaram o P e o N das cordas. Um deles encaminhou o P para fora do barracão, outro puxava o N pelo braço para sair dali, mas o N olhava para o corpo e para a janela de onde tinha espreitado, aparentemente teria sido dali que o tinham abatido.
-Venha vamos sair daqui. – Dizia o agente para o N.
-Não! Ainda há mais três, e este precisa de uma ambulância.
– Os outros três já estão detidos e este…
Ainda o agente não tinha acabado de falar e já o N estava a puxar o corpo para o chão, a tentar controlar a hemorragia e a tentar uma reanimação.
– Deixe-o, ele está mais que morto – Dizia o agente.
-Não, ainda o podemos salvar. Chame uma ambulância, rápido!
– Estão lá fora duas equipas do INEM…
-Mande-os vir!
-Deixe-o!
-NÃO! MANDE-OS VIR JÁ!
O agente pareceu ficar assustado com a reacção do N, pelo que acabou por chamar uma das equipas do INEM. Os técnicos da equipa substituíram o N nas manobras, e só depois é que o agente o conseguiu tirar de dentro do barracão.
-Vamos, agora é você que precisa de ser visto para tratar dessas feridas.
E encaminhou o N à mesma ambulância onde o P estava a ser assistido. Embora estivessem muito próximos não se falaram. O P tinha um olhar vago e distante, o N sentia-se nervoso, alterado.
Ambos foram encaminhados a um hospital, para suturar feridas, nenhum dos ferimentos eram graves, e poucas horas depois foram levados à esquadra para prestarem depoimentos.
Pelo caminho, desde o hospital até à esquadra, o P perguntou ao N.
– Onde te vês daqui a 10 anos?
– Casado e com um filho. – Respondeu o N rapidamente.
O P virou a cara para outro lado, para esconder as lágrimas.
Ambos ficaram retidos na esquadra largas horas, entre depoimentos e confirmação de factos, a relatórios e faxes e telefonemas, acabaram por sair de lá já de noite. O N saiu primeiro e esperou o P à porta, ainda tinha alguma coisa para lhe dizer.
– P, espera!
– Diz…
– Em relação à tua pergunta de há bocado…
– Sim?
– Eu devia ter respondido de uma maneira mais completa…
– Como assim?
– Devia ter dito que, daqui a 10 anos me imagino com um filho adoptado.
– Não estou a perceber…
– E casado, sim. Mas… contigo.

FIM

E pronto acabou,  espero que tenham gostado. E desculpem lá o tempo que demorei a acaba-la.  😛

Fobia: Capitulo XI

O N ainda não sabia o que se tinha passado dentro do barracão, mas sabia que o som de tiros não podia significar nada de bom.
Aproximou-se mais do barracão, mantendo-se baixo para evitar ser visto. Ao mesmo tempo que se aproximava, procurava eventuais entradas e saídas por onde pudesse espreitar para o interior.
Reparou que o barracão só tinha duas entradas, um portão grande na parte da frente, e uma porta na lateral, reparou ainda que ao lado da porta havia uma pequena janela, alta, que provavelmente servia apenas para fazer ventilação da estrutura. Resolveu que seria o melhor sítio por onde espreitar embora também fosse extremamente arriscado.
Continuava a andar a passos curtos e leves, tentando não fazer barulho.
Quando finalmente chegou à janela percebeu que não a conseguia alcançar, a janela infelizmente estava muito alta. Procurou em redor algo que pudesse usar para ficar mais alto, viu que a poucos metros havia um amontoado de paletes de madeira.
“Oh, que bom… Será que isto pode piorar?”
Dirigiu-se ao monte de paletes, escolheu uma que parecesse mais robusta e que fosse fácil de tirar dali sem fazer barulho, depois arrastou-a, lentamente, até à parede do barracão. Encostou a palete verticalmente à parede, com o máximo cuidado para não fazer barulho, subiu para cima da mesma e finalmente conseguiu olhar para dentro do barracão.
O barracão era amplo, sem divisões. Havia uma mesa encostada à parede oposta à qual se encontrava. No cima da mesa havia uma arma de fogo, e um cinzeiro com beatas de cigarro que ainda fumegavam. Encostado à mesa estava um dos rapazes que vinha no carro, olhava fixamente para frente onde o P estava. Amarrado a uma cadeira o P permanecia de cabeça baixa, olhava fixamente para o chão. O líder do grupo permanecia na sua frente, parecia estar a falar para ele, mas o N não os conseguia ouvir.
Por trás do P estava outro dos rapazes, a fumar, que resolveu apagar o cigarro nas costas do P, este contorceu-se com dores.
“Ufa… Pelo menos está vivo. Mas… Onde está o outro?”
O N olhou para todos os cantos do barracão, na tentativa de encontrar o quarto elemento do grupo, mas não o via.
Resolveu descer da palete para voltar à ambulância, precisava de saber se a policia ainda estava muito longe.
Mal assentou os pés no chão sentiu uma pancada extremamente forte na nuca, a única coisa que lhe ocorreu antes de perder os sentidos foi “Foda-se, estavas aí…”.

Fobia: Capitulo X

O trânsito na auto estrada estava moderado pelo que o Pegeut conseguia progredir a uma boa velocidade dirigindo-se para sul.
O N também estava a conseguir aproximar-se mais do carro, os outros condutores, ao ouvirem as sirenes, desviavam-se para dar prioridade à ambulância.
Ao mesmo tempo que virava o volante freneticamente de um lado para o outro, o N, comunicava com a central pelo rádio, a explicar o que se passava e para onde se dirigiam, na esperança que os colegas do CODU informassem a polícia.
A perseguição continuou ao longo de vários quilómetros, após quase uma hora a conduzir que nem um louco em plena autoestrada o Pegeut dirigiu-se a uma saída, atravessou uma ponte e depois meteu-se por uma estrada de campo. O N actualizou a localização e direcção através do rádio, o colega do outro lado, confirmou que já havia viaturas da polícia a caminho, continuou a perseguir o carro, mas naquela estrada a ambulância ficava mais difícil de conduzir àquela velocidade, no entanto não podia desistir.
A distância entre o Pegeut e a ambulância começou a aumentar, o Pegeut deslocava-se muito melhor, na estrada rural, do que alguma vez a ambulância conseguiria.
O N acabou por começar a perder o Pegeut de vista, mas uma vez que a estrada não tinha quaisquer bifurcações ou desvios sabia que o carro só tinha uma direcção a seguir, manteve a maior velocidade que conseguia e rezava para ainda os apanhar a tempo.
Após aproximadamente meia hora a conduzir pela estrada de campo o N começou a avistar ao longe um barracão velho, bem como uma nuvem de pó na direcção do mesmo, calculou que fosse o Pegeut.
Aproximou-se um bocado mais, ainda com a ambulância e quando o barracão já estava só a cerca de 500 metros, apeou-se e continuou o caminho a pé, escondido por entre a vegetação, que embora não fosse muito alta sempre permitia alguma discrição de movimentos.
Quando já se encontrava perto o suficiente, para ver o Pegeut estacionado à frente da porta, procurou um sítio onde se esconder para ficar a observar enquanto a policia não chegava.
Deixou-se ficar 5 minutos, depois mais 10 até que ouviu dois tiros.
“Merda, merda, merda! Tenho de chegar mais perto para ver o que se passa…”