RESiSTÊNCIA: Capítulo I

Nunca pensei vir a viver como vivo. Se em 2013, quando acabei o meu curso, me dissessem que dali a 5 anos andaria perdido pelas ruas europeias sem ter o que comer e onde dormir eu na«ão teria acreditado.

A verdade é que estamos em 2018, já não sou o miúdo de 22 anos que era, e a europa também não é o continente de paz que foi. Após a crise económica de 2008, que durou até 2014, os países europeus acharam por bem federalizar a união. Criaram os Estados Unidos da Europa, centralizando todas as decisões políticas num único que está demasiado longe do povo para o ouvir e sendo actualmente liderado pela Ex-Chancelr Alemã, que também não é conhecida pela sua complacência solidariedadepara com os menos afortunados.

Esta não foi a única mudança na europa. Antes da federalização da união a Grécia viu-se a braços com uma guerra civil como há muito não se via. O governo grego, pressionado pelas ingerências políticas dos países do norte, investiu violentamente contra os manifestantes gregos que protestavam contra a continuada e desavergonhada austeridade, provocou milhares de mortos e deteve todos os que estivessem ligados a movimentos de oposição.

Em Portugal o povo continuou a manifestar-se, mas o despesismo do governo fez com que os protestos caíssem em saco roto, o que levou a duas tentativas de golpe de estado, tendo estas sido suprimidas pelas forças de segurança que estiveram sempre um passo à frente dos revolucionários.

Em espanha os protestos aumentaram sucessivamente, aumentando também a violência dos mesmos, morreram pessoas de ambos os lados da trincheira, tendo o governo pedido a demissão, mas tendo sido depois reeleito por “falta de alternativas”.

Depois dos eventos nestes três países, os media na união europeia começaram a vender aos espectadores a ideia de que uma guerra dentro da união estaria iminente pelo que a única forma de a prevenir seria o refortalecimento da mesma.

Os países do norte lançaram para a mesa a ideia do federalismo, vendendo-a como a única forma de atingir paz social e estabilidade económica para a união. Por toda a europa as pessoas começaram a manifestar-se contra esta ideia e os governos dos seus países foram rápidos a suprimir tais protestos bem como a deter e encarcerar todos os que ousassem opor-se a tal ideia.

O processo de unificação durou cerca de um ano, as polícias dos diferentes países caçavam e anulavam qualquer pessoa que questionasse a formação do novo regime e que tentasse criar uma oposição ao mesmo. Os meios de comunicação para fora da europa foram cortados, criaram-se mecanismos de vigilância das comunicações na internet e vendeu-se, para a comunidade internacional, a ideia de que esta mudança era largamente aceite pelos povos europeus.

Dentro das cidades europeias forma instalados sistemas de videovigilância e imposta hora de recolher obrigatório, as forças policiais fazem patrulhas diárias na tentativa de encontrarem e aniquilarem qualquer núcleo de oposição. Têm tido sucesso a eliminar grande parte deles, felizmente, aquele a que pertenço tem-se mantido firme.

Fobia: Capitulo XII

– Porra, não o podiam deixar fora disto!?
– Cala-te! Ele é que veio atrás de ti? Agora não tentes proteger o teu namoradinho, se ele é como tu também está a mais!
O N, conseguia ouvir a discussão entre o P e o líder do grupo, ainda meio zonzo da pancada sentiu o corpo pesado e preso. Abriu os olhos e sacudiu a cabeça, estava amarrado a uma cadeira, ao seu lado, também amarrado, estava o P. Á frente de ambos estava a o líder do grupo, olhava agora para o N, com um sorriso cínico.
– Então, vinhas salvar o namoradinho mas acabaste por te lixar também não é?
– Ele não é meu namorado! – Gritou o N.
– Oh a sério? Então porque é que te deste ao trabalho de arriscar a vida por ele?
– Porque… Porque sim! Eu não tenho de te dar justificações nenhumas, acho bem que nos deixes ir embora ou vais-te arrepender desta merda!
-Não, não. Só há duas pessoas que se vão arrepender, tu e o teu namorado.
– Ai sim? E vais fazer o quê?
– Por um fim á vossa miséria…
– É mesmo coisa de cobarde…
-Chama-me o que quiseres, eu vou lá fora fumar um cigarro, os meus rapazes ficam aqui para ter a certeza de que vocês recebem o melhor tratamento possível.
O líder do grupo saiu do barracão e foi para a porta fumar. No interior os outros três elementos do grupo divertiam-se a espancar consecutivamente o P e o N.
Após longos minutos de agressão o líder do grupo voltou a entrar. Pegou numa pá, que estava encostada à parede, do lado de dentro perto da porta, e atirou-a a um dos outros rapazes.
– Vai cavar as covas, não podemos deixar os corpos aqui.
O rapaz saiu do barracão pela porta de trás. O líder então mandou os outros dois irem um bocado para a rua.
Puxou uma cadeira para a frente do P e do N, agarrou na arma e sentou-se, fitando-os nos olhos.
-Preciso que me respondam a uma coisa…. – Disse ele para ambos.
– Fode-te! – Respondeu o P.
– Porque é que escolhem ser assim? Se sabem que Deus vos odeia por isso, porque é que escolhem?
– Quem é que te disse que deus nos odeia? – Respondeu o N, que tinha dificuldade em falar devido à quantidade de sangue que tinha dentro da boca.
-Diz a Bíblia.
-Ai é? Ou será que é a interpretação que a igreja católica faz dela que o diz?
– Talvez, mas de qualquer maneira, nós fomos feitos para procriar, para nos reproduzirmos, e vocês não o podem fazer, logo não servem para nada.
-Ai sim? Então e os heterossexuais que não podem ter filhos, por serem inférteis, também queres acabar com eles?
– É diferente…
-Não, não é.
-É sim, esses são normais. Vocês são aberrações, são pessoas que nasceram com defeitos, que metem em risco a nossa raça. Achas que eu quero viver num mundo onde os meus filhos vêem homens a comer-se na rua?
– É melhor viverem num mundo onde o pai é um assassino?
– É por uma boa causa….
– E se um dos teus filhos for homossexual, vais matá-lo?
– Não, mas dou-lhe uma descomunal tareia e corro com ele de casa, depois mato-me.
– É esse o valor que dás à tua vida?
O outro sorriu, puxou a culatra da arma atrás e encostou a ponta à testa do P.
-Uma vez que este esteve tão calado, deve ser por ter mais pressa que tu. Vou fazer-lhe um favor, ele vai primeiro.
O P não conseguia falar, a sua respiração ficou mais rápida e começou a chorar.
-Não faças isso. – Disse o N – Depois vais preso, passas a vida atrás das grades, de que é que te serve?
-Mas… Nunca ninguém vai saber, porque ninguém se rala com duas bichas como vocês. E agora acabou a conversa.
Com a arma ainda colada à cabeça do P, o rapaz olhou-o nos olhos, encostou o indicador ao gatilho. O N cerrou os olhos e desejava poder tapar os ouvidos, mas não podia.

Acabou por ouvir finalmente o som de um tiro. Sentiu um arrepio por todo o corpo. Abriu os olhos.
Ficou perplexo, quando à sua frente, viu o líder do grupo a sangrar da boca, uma ferimento de bala na zona anterior do tórax, os braços caídos ao longo da cadeira com a arma a apontar para o chão.
Olhou para o lado, para ver se o P estava bem. Este continuava de cabeça baixa, de olhos fechados, a chorar.
-P, abre os olhos. Está tudo bem…
O portão do barracão abriu-se, entraram três agentes da policia judiciaria que de imediato soltaram o P e o N das cordas. Um deles encaminhou o P para fora do barracão, outro puxava o N pelo braço para sair dali, mas o N olhava para o corpo e para a janela de onde tinha espreitado, aparentemente teria sido dali que o tinham abatido.
-Venha vamos sair daqui. – Dizia o agente para o N.
-Não! Ainda há mais três, e este precisa de uma ambulância.
– Os outros três já estão detidos e este…
Ainda o agente não tinha acabado de falar e já o N estava a puxar o corpo para o chão, a tentar controlar a hemorragia e a tentar uma reanimação.
– Deixe-o, ele está mais que morto – Dizia o agente.
-Não, ainda o podemos salvar. Chame uma ambulância, rápido!
– Estão lá fora duas equipas do INEM…
-Mande-os vir!
-Deixe-o!
-NÃO! MANDE-OS VIR JÁ!
O agente pareceu ficar assustado com a reacção do N, pelo que acabou por chamar uma das equipas do INEM. Os técnicos da equipa substituíram o N nas manobras, e só depois é que o agente o conseguiu tirar de dentro do barracão.
-Vamos, agora é você que precisa de ser visto para tratar dessas feridas.
E encaminhou o N à mesma ambulância onde o P estava a ser assistido. Embora estivessem muito próximos não se falaram. O P tinha um olhar vago e distante, o N sentia-se nervoso, alterado.
Ambos foram encaminhados a um hospital, para suturar feridas, nenhum dos ferimentos eram graves, e poucas horas depois foram levados à esquadra para prestarem depoimentos.
Pelo caminho, desde o hospital até à esquadra, o P perguntou ao N.
– Onde te vês daqui a 10 anos?
– Casado e com um filho. – Respondeu o N rapidamente.
O P virou a cara para outro lado, para esconder as lágrimas.
Ambos ficaram retidos na esquadra largas horas, entre depoimentos e confirmação de factos, a relatórios e faxes e telefonemas, acabaram por sair de lá já de noite. O N saiu primeiro e esperou o P à porta, ainda tinha alguma coisa para lhe dizer.
– P, espera!
– Diz…
– Em relação à tua pergunta de há bocado…
– Sim?
– Eu devia ter respondido de uma maneira mais completa…
– Como assim?
– Devia ter dito que, daqui a 10 anos me imagino com um filho adoptado.
– Não estou a perceber…
– E casado, sim. Mas… contigo.

FIM

E pronto acabou,  espero que tenham gostado. E desculpem lá o tempo que demorei a acaba-la.  😛

Fobia: Capitulo XI

O N ainda não sabia o que se tinha passado dentro do barracão, mas sabia que o som de tiros não podia significar nada de bom.
Aproximou-se mais do barracão, mantendo-se baixo para evitar ser visto. Ao mesmo tempo que se aproximava, procurava eventuais entradas e saídas por onde pudesse espreitar para o interior.
Reparou que o barracão só tinha duas entradas, um portão grande na parte da frente, e uma porta na lateral, reparou ainda que ao lado da porta havia uma pequena janela, alta, que provavelmente servia apenas para fazer ventilação da estrutura. Resolveu que seria o melhor sítio por onde espreitar embora também fosse extremamente arriscado.
Continuava a andar a passos curtos e leves, tentando não fazer barulho.
Quando finalmente chegou à janela percebeu que não a conseguia alcançar, a janela infelizmente estava muito alta. Procurou em redor algo que pudesse usar para ficar mais alto, viu que a poucos metros havia um amontoado de paletes de madeira.
“Oh, que bom… Será que isto pode piorar?”
Dirigiu-se ao monte de paletes, escolheu uma que parecesse mais robusta e que fosse fácil de tirar dali sem fazer barulho, depois arrastou-a, lentamente, até à parede do barracão. Encostou a palete verticalmente à parede, com o máximo cuidado para não fazer barulho, subiu para cima da mesma e finalmente conseguiu olhar para dentro do barracão.
O barracão era amplo, sem divisões. Havia uma mesa encostada à parede oposta à qual se encontrava. No cima da mesa havia uma arma de fogo, e um cinzeiro com beatas de cigarro que ainda fumegavam. Encostado à mesa estava um dos rapazes que vinha no carro, olhava fixamente para frente onde o P estava. Amarrado a uma cadeira o P permanecia de cabeça baixa, olhava fixamente para o chão. O líder do grupo permanecia na sua frente, parecia estar a falar para ele, mas o N não os conseguia ouvir.
Por trás do P estava outro dos rapazes, a fumar, que resolveu apagar o cigarro nas costas do P, este contorceu-se com dores.
“Ufa… Pelo menos está vivo. Mas… Onde está o outro?”
O N olhou para todos os cantos do barracão, na tentativa de encontrar o quarto elemento do grupo, mas não o via.
Resolveu descer da palete para voltar à ambulância, precisava de saber se a policia ainda estava muito longe.
Mal assentou os pés no chão sentiu uma pancada extremamente forte na nuca, a única coisa que lhe ocorreu antes de perder os sentidos foi “Foda-se, estavas aí…”.

Fobia: Capitulo X

O trânsito na auto estrada estava moderado pelo que o Pegeut conseguia progredir a uma boa velocidade dirigindo-se para sul.
O N também estava a conseguir aproximar-se mais do carro, os outros condutores, ao ouvirem as sirenes, desviavam-se para dar prioridade à ambulância.
Ao mesmo tempo que virava o volante freneticamente de um lado para o outro, o N, comunicava com a central pelo rádio, a explicar o que se passava e para onde se dirigiam, na esperança que os colegas do CODU informassem a polícia.
A perseguição continuou ao longo de vários quilómetros, após quase uma hora a conduzir que nem um louco em plena autoestrada o Pegeut dirigiu-se a uma saída, atravessou uma ponte e depois meteu-se por uma estrada de campo. O N actualizou a localização e direcção através do rádio, o colega do outro lado, confirmou que já havia viaturas da polícia a caminho, continuou a perseguir o carro, mas naquela estrada a ambulância ficava mais difícil de conduzir àquela velocidade, no entanto não podia desistir.
A distância entre o Pegeut e a ambulância começou a aumentar, o Pegeut deslocava-se muito melhor, na estrada rural, do que alguma vez a ambulância conseguiria.
O N acabou por começar a perder o Pegeut de vista, mas uma vez que a estrada não tinha quaisquer bifurcações ou desvios sabia que o carro só tinha uma direcção a seguir, manteve a maior velocidade que conseguia e rezava para ainda os apanhar a tempo.
Após aproximadamente meia hora a conduzir pela estrada de campo o N começou a avistar ao longe um barracão velho, bem como uma nuvem de pó na direcção do mesmo, calculou que fosse o Pegeut.
Aproximou-se um bocado mais, ainda com a ambulância e quando o barracão já estava só a cerca de 500 metros, apeou-se e continuou o caminho a pé, escondido por entre a vegetação, que embora não fosse muito alta sempre permitia alguma discrição de movimentos.
Quando já se encontrava perto o suficiente, para ver o Pegeut estacionado à frente da porta, procurou um sítio onde se esconder para ficar a observar enquanto a policia não chegava.
Deixou-se ficar 5 minutos, depois mais 10 até que ouviu dois tiros.
“Merda, merda, merda! Tenho de chegar mais perto para ver o que se passa…”

Fobia: Capitulo IX

Passaram dois dias desde que o N tinha deixado a A na triagem do hospital.
Ainda não eram 6:00 e já se levantava da cama para ir entrar ao serviço, estava curioso em relação ao estado da A e em relação a se o P tinha voltado a ser agredido ou não. Lavou a cara, os dentes, comeu um iogurte à pressa, vestiu a farda e saiu de casa.
No outro lado da cidade o P tinha mais um pesadelo com o grupo que tantas vezes o atormentara. Acordou assustado, sentou-se na cama, abanou a cabeça e foi até à casa de banho passar água fria na cara.
No outro quarto da casa a A dormia sossegada graças aos comprimidos que o Psiquiatra, que a seguia por causa do trauma, lhe tinha receitado.
O dia passou rápido, já o relógio marcava as 16:00 e o N saia porta fora da base de ambulâncias sentiu o telemóvel a vibrar dentro do bolso. Era um número que desconhecia, mas atendeu.
-Estou?
-Olá N, sou eu…
-P…
-Olá, está tudo bem?
-Sim, e contigo?
-Também…
-Então, que se passa?
-Hum… Queria perguntar-te se não queres ir beber um café comigo hoje?
-P…
-Só um café, a sério.
-Ok.
-Então pode ser no mesmo sitio onde fomos no outro dia?
-Claro.
-Óptimo, vou só avisar a A e vou já lá ter.
-Ok, vou a sair do trabalho também vou já para lá.
-Ok, até já então.
O N não se sentia muito à vontade por ir para o café, no entanto lá foi rua fora.
O P saiu porta fora, entusiasmado por ir ver o N outra vez. Ia em passo acelerado de headphones nos ouvidos desceu a rua de sua casa e segui pela avenida, para cortar caminho meteu-se por uma rua perpendicular que lhe ia poupar dois quarteirões de caminho.
Ao entrar nessa mesma rua apercebeu-se que já há um bocado havia um rapaz a segui-lo. Achou estranho mas não ligou. A rua não era muito movimentada, passavam meia dúzia de pessoas em sentido contrário ao seu, de entre os rostos reconheceu um. Era o líder do grupo que constantemente o agredira. Olhou para trás na esperança de poder voltar para casa sem que o outro reparasse nele mas foi nesse momento que se apercebeu que o rapaz que o seguia à distância era um dos agressores. Pegou no telemóvel para tentar ligar para a policia, mas com a atrapalhação acabou por ligar para o N.
-Estou?
-N!? Gaita!
-O que se passa?
-Estou na 25 de Maio, eles estão aqui!
-Eles quem, o que é que se passa?
-Os tipos que me costumam bater.
Do outro lado o N já só ouviu uns pneus a chiar e o telemóvel a bater no chão. Depois disso a chamada caiu.
O grupo de rapazes que tantas vezes agredira o P estava determinado a acabar com ele de uma vez por todas, tinham-no metido à força num carro e arrancavam pela rua a toda a velocidade.
Desesperado à procura de uma maneira de ajudar o P o N correu o que podia e o que não podia para voltar à base, pegou numa das ambulâncias que estavam desocupadas e arrancou base fora. Ligou as sirenes e os rotativos e dirigiu o mais rápido que pode para a 25 de Maio, ainda na rua que a antecedia já via um Pegeut 206 preto a seguir em direcção à entrada para a auto-estrada, esforçou-se por ver para dentro do carro. Conseguiu ver o condutor, um pendura e no banco de trás mais três pessoas. Reconheceu imediatamente a do meio, era o P.
Dentro do Pegeut o P seguia sentado, calado enquanto um dos rapazes lhe apontava uma arma de fogo.
-Deixa-te ir sossegadinho P, olha que ainda sabemos onde moras e a tua amiga soube mesmo bem…, dizia-lhe o rapaz que se sentava à sua esquerda.
O N esforçou-se por seguir o Pegeut, o condutor deste percebeu que estava a ser seguido e então acelerou a marcha em direcção à auto-estrada.

Ruas

As ruas da cidade são incríveis. Não só pela magnitude dos edifícios mas também pela variedade de pessoas que por elas passam todos os dias. Serão apenas números estatísticos numa folha de papel ou serão diferentes vidas, diferentes historias, diferentes livros e revistas que todos os dias se pavoneiam pela cidade. Tentam dançar por entre os problemas, tentam incansavelmente atingir uma suposta felicidade. Afinal do que precisamos para ser felizes? Somos todos muito inteligentes e conscientes e achamos que sabemos sempre qual a resposta a esta pergunta. Será que sabemos? Será que sem tristeza a felicidade existe? Se algum dia chegarmos a atingir a felicidade qual passa a ser o nosso propósito para cá andar?
Existem frases feitas, cospem por aí que a vida é feita de escolhas, escarram que a vida não é um mar de rosas, vomitam que a vida é dura. Será? Será que realmente fazemos escolhas ou que todas a decisões que fazemos são condicionadas por milhares de coisas que não controlamos? Se a vida não é um mar de rosas então o que é? Um rio poluído? Será a vida realmente dura? Ou somos nos que a enrijecemos? A vida é uma oportunidade única que nos é dada, todos nós que estamos vivos somos privilegiados. Todos os dias acordamos e temos a oportunidade de redefinir tudo, de nos redefinirmos, de redefinirmos o mundo. A vida até pode ser a maior merda que existe, cabe-nos a nós aprender a gostar de merda. Cabe-nos não nos enterrar nela, não a levando demasiado a sério.
Mas depois de pensar em tudo isto, agarro no casaco, ato as sapatilhas e saio porta fora. Acho que desta estou galvanizado pelo som da música nos headphones, ou será do álcool? Não interessa… Irei eu a andar demasiado depressa ou aquela mãe de quinze anos está a andar demasiado devagar? Estarei a sonhar ou aquele tipo da minha idade está a apertar um bocado mais o garrote para apanhar melhor a veia? Os prédios parecem mais altos do que no outro dia, o sol fica para trás deles, as poucas nuvens que se vêm no céu têm formas engraçadas uma delas lembra-me um recem nascido, é parecido com aquele que apareceu num caixote do lixo há uns dias. Gosto dos cartazes políticos, da propaganda. A crise! Sim, culpemos a crise! Merda, fomos nós que inventamos o dinheiro e agora não conseguimos viver sem ele!? Por amor de deus, preciso de dinheiro para respirar, o meu coração já não bombeia sangue, acho que anda a bombear cotações da bolsa. Somos tão inteligentes, somos tão superiores a todos os outros animais, não somos? Em vez de nos viciarmos em viver viciamo-nos nos trocos, no metal e no papel verde, vale mais do que a vida, vale mais do que o mundo. Vale mais do que qualquer valor que algum dia possamos inventar, afinal vale mais que Deus ou do que uma religião.
Sacudo um bocado a cabeça a ver se estes pensamentos pseudo-filosoficos se apagam, não servem de nada, não levam a lugar nenhum. O metro por outro lado já me leva algum lado, e que sítio excelente para observar a vida é a paragem do metro. Gosto de ver o polícia que aceita o suborno, o pai de filhos que pisca o olho á prostituta seropositiva que lhe diz fazer-lhe um desconto se não usarem preservativo, o mendigo que é esquecido por todos, do qual todos desviam o olhar porque no fundo todos são responsáveis pela sua miséria! Porque afinal todos falhamos enquanto seres humanos quando deixamos que semelhantes andem pelas ruas sem comida nem roupa, porque afinal deixamos que eles fossem embrulhados no turbilhão dos euros e embora nos estendam a mão esperançadamente acabamos por simplesmente desviar o olhar, porque não é nossa obrigação. Não temos de nos ralar, cuidamos de nós e da nossa família, se der, não faltava mais nada que nos ralarmos com os outros.
Ao lado do mendigo estão os cinco, os mãozinhas de ouro, o gang do metro. Assaltam tudo quanto lhes passe pela frente, se antigamente se limitavam a ameaçar as pessoas, agora que têm todos os catorze anos feitos já podem andar com armas de fogo ou brancas que não têm medo de usar, porque afinal não podem ser presos. Na carruagem do metro vê-se de tudo um pouco, para além do meu reflexo nos vidros consigo ver os negócios que por aqui se passam, aposto que não é farinha que está naquele pacote…
Finalmente chegámos, toda a gente se apreça a ir para a porta para sair da carruagem. Não percebo a pressa, também fomos nós que inventamos as horas… não as devíamos poder controlar? Porque é que nos controlam elas a nós?
Subo as escadas da estação, ainda a meio já dá para ouvir as buzinas dos carros, os insultos, os choros dos miúdos por mais um capricho que os pais, árduos trabalhadores, não puderam satisfazer. Ao fundo da rua lá se vê um casal de namorados, uma jura de amor eterno, mal ela sabe que o homem que a jura proteger vai ser o que mais mal a vai tratar. Dá-me vontade de rir, devia chorar?
Enfim, sinto-me embriagado com as cores e diversidades da cidade, com a multiplicidade de realidades que aqui coabitam todos os dias, sinto-me quase conformado com tudo isto. E sinceramente, porque não? Porque passar a vida a tentar ser diferente? Será melhor tentar ser mais um e acabar excluído?
Não sei…
Nem quero saber! Só quero aproveitar a minha juventude, continuar a observar, continuar a criar filmezinhos na minha cabeça, continuar a procura do que não encontro e acordar todos os dias a pensar “Quem vou ser hoje?”. Quero continuar a sentir medo, quero continuar a sentir ansiedade, quero que me continuem a aparecer problemas para resolver, quero continuar a poder sentir a areia da praia a mover-se debaixo dos pés, quero continuar a pisar merda de cão e a sacudir a sapatilha na relva. Quero continuar a desfrutar de tudo o que a vida tem para me dar, seja bom ou mau. Afinal um dia vou morrer, um dia o meu coração vai deixar de bater e a única coisa que vai contar aí, são quantas experiencias eu vivi.

Manhã

Caramba, estas noites de farra em bares andam a dar cabo de mim. Dizem que o álcool mata neurónios, mas eu acho que já não são só os neurónios a morrer, acho que todo eu estou a morrer um bocadinho por dentro. Só tenho três horas de sono dormido mas tenho de ir trabalhar, as contas não se pagam sozinhas e as dívidas fazem-se cobrar.
O meu patrão bem me diz que eu preciso de descansar, que já não dou o rendimento que dava e mais uma data de tretas, que sabe ele? Ele não tem problemas…
Chega de lamurias, tenho de sair da cama, por mais que me custe. Para não fazer uma saída tão brusca vou-me sentar primeiro um bocado, espreguiçar-me bem, inspirar fundo.
Saio da cama meio encolhido por causa do frio, estes verões de Março têm sempre manhãs geladas.
Vou lavar a cara com água fria para ver se acordo deste estado de dormência. O café que eu faço de manhã não é tão bom como o que a minha mãe fazia, e o pão parece que também não sabe ao mesmo, mas têm de servir. Visto as calças pretas, a camisa branca, a gravata vermelha e as minhas all-stars de ganga.
O meu patrão diz que não me gosta de ver assim vestido, mas eu também não o gosto de ver de maneira nenhuma e não me queixo.
Agarro nas chaves, na carteira e no telemóvel, saio de casa e entro no carro. Está a precisar de uma limpeza, tem demasiados pacotes vazios de batatas fritas e de pipocas espalhados pelo chão, e as caixas vazias de preservativos também não lhe dão muito melhor aspecto.
Esta é sem dúvida a melhor hora para conduzir pela cidade, é o pára-arranca perfeito. Adoro, juro que adoro andar pelo meio do trânsito, ouvir businadelas, insultos e berros parvos de pessoas que não sabem esperar não sabem ter calma. “FODA-SE SAI DA FRENTE CARALHO! JÁ ESTOU ATRASADO PARA O TRABALHO E AINDA TENHO DE GRAMAR COM ABÉCULAS COMO TU!” Acho que ele não me ouviu, vou mas é apertar a busina. Vá lá! Mexeu-se. Adoro isto… Ou então não.
Oh, excelente! Uma operação stop. Um dos polícias mandou-me encostar, veio ter comigo á janela. “Bom dia!” Olha… Eu conheço este gajo! “Bom dia Ricardo!” “João!?” “Sim.” “Já não te via há tanto tempo, olha caga nisto, eu sei que tens tudo em ordem. Podes seguir” “Obrigado, até qualquer dia.” Afinal isto de sair a noite tem as suas vantagens, ficam-se a conhecer pessoas de todo o lado e com as mais variadas profissões, e afinal ele até me deve um favor. Sim porque ajuda-lo a entrar no primeiro andar sem que a mulher dele desse por isso e tendo em conta que ele não sabia das chaves, devido a quantidade de álcool que tinha no sangue, não foi propriamente fácil. Aliás, gostava de me lembrar como consegui tal proeza…
Bem, não posso estar a pensar nestas cenas, tenho de me despachar que o patrão não perdoa. Ah a fachada do edifício onde eu trabalho, como é bonita, como eu adoro este lado. A sério, nem estou a ser irónico nem nada… Ok, talvez esteja.
Caramba é melhor mas é correr pelas escadas, já cá devia estar há meia hora…
“Bom dia Sr. João, já nem se cumprimenta as pessoas?”
“Desculpa Carlos, se quero manter o escroto agarrado ao corpo tenho de despachar, que o chefe já não me pode nem ver a frente.”
Boa, ali está a minha secretária. Ando calmamente em direcção á mesma na esperança que ninguém dê por nada, sento-me em frente ao computador. Gosto de perder um minuto ou dois a observar os meus colegas que se sentam em secretarias em redor da minha. A Rita está só a olhar para o Miguel e a morder o lábio, esta gaja é incrível já dormiu com toda a gente desta empresa excepto eu, claro, e mesmo assim parece que não chega. O Pedro está a tentar esconder a garrafa de whisky, as reuniões nos alcoólicos anónimos não o têm ajudado em nada e quem sofre é a mulher, que leva tareia todos os dias á custa das bebedeiras dele. Lá está a Maria, isto sim é uma mulher, consegue enganar o marido e dois amantes e ainda tem tempo para levar os filhos á catequese e educa-los sobre lealdade e dedicação. A secretaria do Rodrigo está vazia, estranho, terá ficado doente?
Olha, olha. É a mulher do chefe que vem a chegar, vem com ar de poucos amigos, vai direita á porta do gabinete dele. Sim, senhor. Nem bateu nem nada, entrou por ali como se fosse tudo dela.
“Aaaaaah!”
Que raio!? Já ouvi de tudo um pouco vindo daquele gabinete, mas gritos histéricos de mulher é uma estreia! Olha já vem a sair… “Eu não acredito nisto! Como é que me pudeste enganar durante tanto tempo? Nós temos três filhos por amor de deus!” O patrão vem a sair meio atrapalhado a puxar as calças para cima “Desculpa querida… Não sei como explicar…”, “Esquece, não é preciso!” Lá vai ela, toda danada, a toda a velocidade em direcção as escadas.
Espera vem mais alguém a sair do gabinete… Mas que!? É o Rodrigo e vem a fechar a braguilha…

Fobia: Capitulo VIII

[Já tinha saudades de escrever, obrigado pelos comentários. ;)]

-R!
-Diz?
-Temos serviço…
-Então é o quê?
-Feminino, 19 anos, vítima de agressão e violação.
-Estás a gozar…
-Não, agarra-te ao volante.
A ambulância fez a curva á saída da base com apenas duas rodas a tocar o chão, sirenes e rotativos e todo o barulho habitual de uma ambulância. Deslizou por entre o trânsito, passou pelos sinais vermelhos e não abrandou nas lombas.
-É ali?
-Deve ser, está ali o carro da PSP.
-Ok.
A ambulância estacionou por trás do carro da polícia, os dois técnicos saíram e agarraram no material. Subiram as escadas e entraram no apartamento. O N dirigiu-se imediatamente ao quarto de onde vinha o som de vozes, quando entrou bateu com os olhos no P.
“Gaita, parece perseguição.”
“Ainda bem que foi ele que veio…” pensou o P.
O N foi ter com a A, o colega seguiu-o.
-Boa tarde, sou o N. Este é o meu colega, o R.
-Olá… Respondeu a A, ainda a soluçar.
-Vamos tratar de ti e levar-te ao hospital está bem?
Os técnicos da ambulância avaliaram a A, arrumaram o material e ajudaram-na a ir para a ambulância.
Um dos agentes encaminhou o P até ao carro.
-Bem, nós vamos para a esquadra, a equipa de perícia já vem a caminho. Alguém depois vai ter com ela ao hospital para recolher os relatórios médicos. Disse o agente.
-Ok, até mais logo. Respondeu o N
-N! Gritou o P antes de entrar no carro da polícia.
-Diz
-Trata bem dela, sim?
-Não te preocupes.
O P sentou-se no banco de trás e o carro da PSP arrancou em direcção á esquadra.
A A deitou-se na maca e a ambulância arrancou em direcção ao hospital.
-Então, tu é que és o N?
-Sou…
-O P tem falado de ti.
-A sério?
-Sim, acho que ele gostou bastante de ti…
-Pois…
-Ele chegou a falar contigo hoje?
-Sim, fomos beber café.
-Ele deve ter ficado muito contente.
-Talvez…
-Então, não correu bem?
-Correu, mas…
-Que é que se passou?
-Ele queria o meu número de telefone…
-E não lhe deste?
-Eu não quero que ele crie expectativas às quais não posso corresponder…
-Mas… Não tens de namorar com ele, podes apenas tornar-te amigo.
-E será que ele quer só um amigo?
-Ele só quer alguém em quem confiar, este ano tem sido péssimo. Sou a única amiga que ele tem, não há mais ninguém que lhe ligue, que se preocupe, percebes?
-Percebo, sei bem o que é…
-Então, será assim tão difícil dar-lhe o teu número para que ele possa falar contigo de vez em quando? Ele sabe que nem toda a gente é gay, acho que não está a partir do princípio que sejas. Acho que fica contente se se tornar apenas teu amigo…
O N arrancou um pedaço de papel dos relatórios e rabiscou lá um conjunto de algarismos.
-Pronto, toma. Quando estiveres com ele dá-lhe isso, é o número do meu telemóvel.
-Fica descansado, eu entrego-lhe.
-Só espero não me arrepender…
-Não te preocupes.
-N, estamos a chegar! Avisou o R.
-Ok.
A ambulância parou a entrada das urgências, ajudaram a A descer, passaram os dados na triagem. O N despediu-se e voltaram para a base.

Chamada

-Estou?
-Estás?
-Ahahaha, parvo.
-Que estás a fazer?
-Saí agora da escola, estou a caminho de casa…
-De casa? Mas não vinhas ter comigo?
-De tua casa. Eheh
-Ah bom, acho bem. Como foram as aulas hoje?
-Uma seca… Mas…
-Mas o quê?
-Resolvi contar ao pessoal que coiso…
-Coiso?
-Sim que sou…
-Ah! E como é que reagiram?
-Uns melhor que outros.
-Pois, já era de esperar.
-Os mais próximos reagiram bem, os outros gozaram. Mas esses outros também não interessam.
-É verdade, até porque mesmo que todos reagissem mal tinhas-me a mim. E eu valho bem mais que eles todos. Eheh
-Convencido…
-Vais negar?
-Não, até porque…
-O que foi?
-Vinha a pensar, antes de estar contigo não dava grande valor a minha vida.
-Pois, eu sei, as cicatrizes nos pulsos falam por ti.
-Pois… Mas agora… Parece que ganhei gosto pela vida, percebes?
-Percebo, eu tenho esse efeito nas pessoas. Ahahahah
-Parvo. Agora a sério, dantes não me importava se morria ou não, mas agora quero é viver muito tempo para o poder passar contigo.
-Ai que fofo, já vais ganhar três abraços só por isso.
-Ainda estou longe daí.
-Pois é a tua mania de andar a pé.
-Faz-me bem…
-Sim, se quiseres tornar-te numa radiografia.
-Exagerado…
-Um bocado. Aluguei um filme para vermos.
-Qual?
-Não digo…
-Diz lá!
-Não
-Olha vem ali um do pessoal que não gostou muito que eu me assumisse.
-Ah… Faz de conta que não os vês.
-Estão-se a rir para mim, estranho.
-Mostra-lhes o dedinho.
-Não…
-O que foi?
-“Oh bichinha olha para aqui!” [Estrondo]
-R!?
-R, está tudo bem!?
-R!!!?

Falta

Sim, sinto que tenho estado em falta por escrever cada vez menos no blog. O mês não tem estado a ser fácil, tenho andado numa rotina estúpida, mal tenho tempo para me coçar e então a disposição para escrever é cada vez menor.

No entanto Fevereiro é conhecido por ser sempre o mês mais pequeno do ano. Então pode ser que quando acabar que as coisas voltem ao ritmo normal.

Sei que tenho de dar um final ao “Fobia” que tenho de escrever mais qualquer coisa, mas não há paciência, pelo menos por agora.

Portanto esperamos para ver se o ar da primavera traz a disposição de que preciso para isso.